março 24, 2008

"Hoje somos (quase) todos vítimas!" de David G. Green, Londres, Civitas, 2006


Os valores da democracia liberal estão a ser substituídos por uma cultura de "vitimocracia" no Reino Unido (sobre a expansão de similar culto na América do Norte, ver o artigo crítico de Edward W. Younkins, Multiculturalism: the Rejection of Truth and Reason). Para David Green da Civitas - The Institute for the Sudy of Civil Society, os britânicos estão a transformar-se numa "nação de vítimas", o que não deixa de ter a sua ironia, se pensarmos que ainda há menos de um século atrás eram o maior poder imperial e colonial mundial. Hoje, a soma de todos os grupos oficialmente protegidos, por serem considerados vítimas, atinge 73% da população. Alguns grupos reclamam ainda serem vítimas de múltiplas discriminações, pelo que, se as suas reivindicações fossem levadas a sério, cerca de 109% da população teria de ter o estatuto de vítima.... Para além da questão do reconhecimento da identidade, há vantagens políticas e materiais que tornam o status de "oprimido" particularmente apetecido: tratamento preferencial no mercado de trabalho, visibilidade na esfera pública e interferência no processo legislativo, compensações financeiras, e até maior facilidade de uso da polícia e do sistema judicial para silenciar as críticas mais inconvenientes. No país de John Locke e Adam Smith, a nova vitimocracia grupal está a substituir as velhas ideias liberais da autonomia e responsabilidade moral do indivíduo, que era visto como independente do grupo. Agora, o indivíduo já não é visto como um detentor de soberania moral, mas como alguém possuidor de uma característica quase "genética" (de vítima), que acompanha inexoravelmente os membros do grupo a que pertence. O sistema legal e judicial começa também a reflectir os valores da vitimocracia, afastando-se da antiga ideia da igualdade perante a lei de todos os cidadãos (por exemplo, um crime contra um membro de um grupo identificado como vítima é mais grave do que o mesmo crime contra um cidadão comum...). Resta-nos ficar à espera que estas ideias "evoluídas" sejam também copiadas em Portugal, onde a construção de uma vitimocracia pós-moderna está ainda muito atrasada.
JPTF 2008/03/24

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