maio 03, 2007

“O que está em jogo na Turquia” in Jornal de Notícias, 3 de Maio de 2007

A anulação da votação da eleição presidencial, feita pelo Supremo Tribunal, após o recurso do Partido Republicano do Povo (CHP) – o maior partido da oposição social-democrata, liderado por Deniz Baykal –, mostra uma situação política complexa. O Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) de Recep Tayyip Erdogan, de direita e raízes islamistas, procurava eleger uma personalidade da sua confiança (Abdullah Gül, o Ministro dos Negócios Estrangeiros), pois na eleição parlamentar de 2002, com pouco mais de 1/3 dos votos (34,3%), tinha obtido quase 2/3 dos assentos. Embora oficialmente conservador-democrático, o AKP não se desligou das suas raízes islamistas. Várias medidas e iniciativas legislativas como a criminalização do adultério, a revogação da proibição do uso de véu nas escolas e organismos públicos, e a colocação de personalidades pro-islamistas em cargos importantes do Estado (algumas frustradas pelo veto do Presidente da República, Ahmet Necdet Sezer), sugerem isso. O mais paradoxal é que esta estratégia reislamização soft precisou, em parte, da cobertura da adesão à UE para ser viável, pois os «valores europeus» serviram também para criar uma contra-elite, oposta às Forças Armadas e ao establishment secular. A questão é saber se a UE está preparada para lidar com a complexidade e especificidades da democracia turca.
OBS: Artigo publicado no JN sob o título O que está em jogo em Istambul
http://jn.sapo.pt/2007/05/03/mundo/o_esta_jogoem_istambul.html
JPTF 2007/05/03

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