março 30, 2008

O que é o multiculturalismo? (como ideologia e política pública) - Parte III


1. É conhecida a apetência sociológica portuguesa pelos produtos importados, sejam eles banais bens de consumo, ou produtos culturais sofisticados. Esta apetência leva, não invulgarmente, a tentar reproduzir modelos de outros países que, frequentemente, são apenas conhecidos de forma parcial e nas suas facetas mais atractivas, e se auto-justificam pela autoridade que lhe é conferida pelo facto de terem origem num país mais desenvolvido, associada à novidade da sua introdução em Portugal. Aparentemente é isto que se está a passar na propensão para importar o multiculturalismo. Todavia, isto não é apenas uma questão de moda, ou de apreciar a diversidade dos sabores gastronómicos com origem em várias partes do mundo (como na série de selos lançada pela European Postal Organisation PostEurop, em 2005). Por isso, valeria a pena olhar com mais atenção para a experiência canadiana. Esta, pelas razões anteriormente apontadas, é um caso de (in)sucesso muito mais complexo e problemático do que normalmente é apresentado. Para além disso, convém não perder de vista que a experiência histórica do Canadá como Estado soberano, e a matriz sociológica da sua população, pouco ou nada têm a ver com a portuguesa. Aliás, o país até esteve à beira de uma secessão do Quebeque, rejeitada por uma margem de 1,6% em referendo, o que mostra bem a dificuldade e/ou sua (in)capacidade em formar canadianos.

2. Por último, a experiência de outros países com tradições em políticas multiculturais, como, por exemplo, o Reino Unido, a Holanda ou a Austrália, poderia de facto ajudar-nos. E ajudar-nos especialmente a não cometer os mesmos erros. Efectivamente, em ambos, a partir dos anos 60 e 70 do século XX, foram implementadas políticas multiculturais que, em graus variáveis, fracassaram na integração cultural e na formação de cidadãos oriundos de grupos minoritários e de outras culturas. Nesses países já se percebeu que a utopia multicultural contemporânea - a utopia que sucedeu à velha utopia da sociedade sem classes -, se pode transformar, em pouco tempo, num verdadeiro «drama multicultural» (a expressão é do sociólogo holandês Paul Scheffer). Assim, actualmente estão já numa fase de reversão das suas políticas, como mostra bem Christian Joppke no seu artigo A Retirada do Multiculturalismo do Estado Liberal. E nós, será que vamos continuar a não aprender com as experiências dos outros e a cair nos mesmos erros que estes cometeram há trinta ou quarenta anos atrás?

OBS: Texto baseado no artigo originalmente publicado na revista Atlântico nº 10 (2006): 37-39
JPTF 2008/04/01

O que é o multiculturalismo? (como ideologia e política pública) - Parte II


1. Deve a um sikh ser permitido conduzir sem capacete, por ser uma prática cultural do seu grupo o uso habitual do turbante? Deve uma muçulmana poder fazer a chamada «circuncisão feminina», por ser esta a sua tradição religiosa e familiar? Deve um hindu estar isento dos feriados religiosos (cristãos) dos países ocidentais, podendo abrir, por exemplo, as suas lojas comerciais em dias em que está proibida a sua abertura por motivo de celebrações religiosas do Cristianismo? Devem os curricula escolares ser alterados em disciplinas como a História e/ou a Literatura, para dar «voz aos que não têm voz» e aumentar a auto-estima dos grupos minoritários em detrimento do estudo dos clássicos Dead White Males como William Shakespeare, que reflectem a cultura «eurocêntrica» (anglo-saxónica) da maioria branca, protestante e masculina (WASP) ? Vistas a partir de Portugal estas questões são não só novas como podem até parecer um pouco bizarras e fazer-nos sorrir. Todavia, estas são controvérsias sérias e bem conhecidas não só do debate teórico , como do cidadão comum nos países onde o multiculturalismo não é apenas uma palavra fashion para políticos ou comentadores. É que aí os efeitos das suas políticas são uma realidade bem palpável no dia a dia. Quais são esses efeitos? Vejamos o caso do Canadá.

2. Muitos dos principais «cultores» do multiculturalismo são de facto canadianos. Desde o seu «pai político» nos anos 60 do século XX, o senador de origem ucraniana, Paul Yuzyk, até aquele que o Wall Street Journal já designou como sendo o guru global do multiculturalismo, Will Kymlicka. Todavia, este país é um caso particularmente curioso pois o entusiasmo das elites políticas e académicas pelo multiculturalismo esfria-se bastante quando se chega à população, que supostamente seria a grande beneficiária dessas políticas. É o que mostra um livro cáustico sobre culto do multiculturalismo no Canadá, da autoria de Neil Bissoondath, um canadiano nascido em Trinidad. Entre outros dados que contrariam o discurso oficial de sucesso, este refere que, num inquérito feito em meados dos anos 90, a maioria dos canadianos acreditava que o «mosaico multicultural» não estava a funcionar; por sua vez, mais de 70% afirmavam que as políticas multiculturais deveriam dar lugar a uma «absorção cultural» do género do melting pot dos EUA. Para este escritor cujo livro se tornou rapidamente num best-seller, tendo ganho o Montador Award de 1994, o multiculturalismo é uma espécie de novo apartheid que cria «canadianos com hífen» (afro-canadianos, muçulmano-canadianos, sino-canadianos, russo-canadianos hispano-canadianos, etc.) e não apenas «canadianos» tendo um efeito oposto ao proclamado oficialmente: afasta as minorais da cultura dominante levando-as ao ghetto cultural, o que lhes diminui as possibilidades de integração e de sucesso económico e social.

3. Ainda no Canadá, em 2004/2005 diversos movimentos conservadores e islamistas tentaram a criação de tribunais que aplicariam a Xária (Sharia) – a lei islâmica –, para as questões de família entre muçulmanos na área de Toronto (ver o filme Sharia in Canada, dirigido por Dominique Cardona e produzido pelo National Film Board of Canada). Essa tentativa evidenciou a fragilidade das políticas multiculturais canadianas e a ‘janela de oportunidade‘ que estas representam para os movimentos que têm por objectivo a (re)islamização da sociedade. Foi à enérgica acção de uma advogada canadiana, nascida no Irão, Homa Harjomand, activista dos direitos humanos e das mulheres que, em grande parte, se deve o fracasso dos ‘tribunais xária‘. Vale a pena destacar aqui um excerto da sua fortíssima reacção de indignação contra as políticas multiculturais e o relativismo cultural que as suporta, tão ao gosto das elites canadianas e ocidentais: «Em nome do ‘respeito pelo multiculturalismo‘ e das vergonhosas ideias do relativismo cultural que deixam as pessoas sujeitas ao arbítrio da sua própria cultura, os Estados deixaram as portas amplamente abertas para as religiões e aderentes de antigas tradições promoverem escolas religiosas e centros; para legalizar casamentos arranjados e forçados; para segregar rapazes a raparigas com idades muito novas na escola, nos autocarros escolares e nos recreios; para impedir as raparigas de obterem iguais oportunidades em todos os aspectos das suas vidas; ver mas ignorar os homicídios de honra e muitas outras práticas… Todas estas práticas desumanas acontecem também no Ocidente.»

OBS: Texto baseado no artigo originalmente publicado na revista Atlântico nº 10 (2006): 37-39
JPTF 31/03/2008

O que é o multiculturalismo? (como ideologia e política pública) - Parte I


1.
A palavra «multiculturalismo» é ambígua e tem pelo menos dois sentidos diferentes: i) um sentido descritivo, onde se refere a um facto da vida humana e social, exprimindo a diversidade cultural étnica, religiosa que se pode ver no tecido social, ou seja, um certo cosmopolitismo que actualmente é fácil de observar em qualquer grande cidade da Europa e da América do Norte; ii) um sentido prescritivo, onde designa as políticas de reconhecimento de identidade e de «cidadania diferenciada» que os poderes públicos devem pôr em prática, em nome dos grupos minoritários. Importa sublinhar que enquanto a maior parte da opinião pública, pelo menos em Portugal, interpreta o discurso do multiculturalismo no sentido descritivo do conceito, o que está em causa neste debate é essencialmente o sentido prescritivo do mesmo. Isto naturalmente leva-nos à questão das já referidas políticas de reconhecimento de identidade e/ou de «cidadania diferenciada», que os defensores do multiculturalismo sustentam como sendo a «boa» orientação política e fundamentam em princípios democráticos e em valores morais e de justiça social, argumentando com «casos de sucesso» como o do Canadá. Mas, visto que se trata de políticas públicas, que ideias e/ou ideologias prescrevem essas políticas? Para respondermos a este questão, vamos efectuar uma breve referência ao debate teórico sobre o multiculturalismo no universo cultural anglo-saxónico, e às «guerras de cultura» que este alimenta.

2. Se é claro que o multiculturalismo, como política pública, é um produto cultural que está associado, em graus variáveis, aos chamados países anglo-saxónicos (Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido e EUA) – embora tenha também raízes noutros Estados como a Holanda – o que já é menos claro é saber como se chegou à ideia da necessidade de políticas públicas multiculturais, bem como saber quais são as concepções ideológicas que sustentam essas políticas. Na imensa literatura teórica que existe na América do Norte sobre este assunto, um dos poucos pontos consensuais é que o multiculturalismo – pelo menos na sua versão mais extrema –, é um produto daquilo que podemos designar como «marxismo cultural» por falta de uma designação mais rigorosa. De facto, na sua origem encontram-se os Estudos Culturais britânicos da «Escola de Birmingham», desenvolvidos a partir dos anos 50 do século XX, os quais têm duas grandes fontes de inspiração. Uma primeira está ligada aos trabalhos do revolucionário e fundador do Partido Comunista italiano dos anos 20 e 30, Antonio Gramsci. Nos seus «cadernos da prisão», Gramsci desenvolveu a ideia que as «inevitáveis» revoluções comunistas anunciadas por Karl Marx e Friedrich Engels não ocorreram devido à «hegemonia cultural» da burguesia, a qual levou a que as classes trabalhadoras e os oprimidos se identificassem com o seus valores impedindo a revolução. Então, impunha-se prosseguir uma nova estratégia: minar a hegemonia cultural burguesa, deslocando o combate (que já se anunciava perdido) do terreno da economia para o mais prometedor terreno da cultura. Não é por acaso que os neo-gramscianos procuram criar «trincheiras de resistência» nas disciplinas culturais (Estudos Culturais, Literatura, Antropologia, Sociologia, Comunicação Social, Ciências da Educação, etc.).

3. Mas uma outra fonte de inspiração alimenta também o multiculturalismo. Esta encontra-se nos trabalhos dos pensadores marxistas não-ortodoxos (ou seja, não alinhados pela doutrina oficial dos partidos comunistas de influência soviética) da chamada «Escola de Frankfurt» (Walter Benjamim, Theodor Adorno, etc.) e na sua crítica de índole cultural à sociedade capitalista. Esta linha teórica foi outra proveitosa fonte de inspiração para os Estudos Culturais britânicos e para muitas das posteriores inovações da teoria social. Actualmente são os continuadores destas linhas de pensamento – que agora não se auto-designam habitualmente como marxistas –, que pretendem justificar com a sua «autoridade científica» e promover junto dos decisores políticos estaduais a necessidade e as virtudes morais do multiculturalismo. Subjacente a esta argumentação, está, sobretudo, o argumento da impossível neutralidade do estado liberal face à diversidade cultural e a consequente opressão que resulta dessa impossibilidade de neutralidade cultural, para os diferentes grupos minoritários. Nesta visão, é lugar comum afirmar-se que «todas as culturas têm igual valor» merecendo por isso igual tratamento e respeito, não havendo, então, qualquer motivo para valorizar umas em detrimento das outras. Outra ideia em que assenta este argumentário é a da impossibilidade de uma verdade objectiva, de tipo transcultural, ou seja, de uma verdade comum às diferentes culturas. Como se pode já imaginar, esta ideia leva facilmente a um relativismo cultural extremo a que os seus defensores chamam a «incomensurabilidade» das diferentes culturas.

OBS: Texto baseado no artigo originalmente publicado na revista Atlântico nº 10 (2006): 37-39
JPTF 2008/03/30

Peça de teatro baseada nos ‘versículos satânicos‘ de Salman Rushdie estreia-se com receio de violência em Potsdam


Os ‘versículos satânicos‘, uma peça baseada no romance homónimo de Salman Rushdie, concebida por Uwe Eric Laufenberg e Marcus Mislin, estreia-se hoje no teatro Hans Otto de Potsdam. O actor turco Oktay Khan, que figurava no elenco inicial, teve de abandonar a representação após ter recebido ameaças que seria atacado. Salman Rushdie, que vive sob protecção policial desde 1989 devido a este livro, foi convidado para a estreia, desconhecendo-se se irá estar presente no teatro de Potsdam. Ver notícia no EL Pais e no Guardian.
JPTF 2008/03/30

março 29, 2008

Fitna, o filme: ‘nem hipérbole, nem metáfora mas repetição‘ in NRC Handelsblad, 28 de Março de 2008


Num curioso artigo assinado por Bas Blokker - crítico de cinema do prestigiado jornal holandês NRC Handelsblad -, é desmontada e analisada em detalhe a técnica cinematográfica usada pelo debutante Geert Wilders, para fazer passar a sua mensagem propagandística através do cinema. Bas Blokke analisa comparativamente o Fitna com outros filmes de teor propagandístico efectuados anteriormente, com intuitos muito diversos: desde os nazis aos soviéticos, passando pelos filmes publicitários e as suas técnicas repetitivas de imagem. Curiosa é a comparação efectuada com os igualmente propagandísticos Fahrenheit 9/11 de Michael Moore (que pretendia mostrar que George W. Bush é um idiota) e Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore (que pretendia mostrar que estamos à beira de uma catástrofe ambiental). Uma boa leitura para os interessados em técnicas cinematográficas e de propaganda político-ideológica, que andam muito mais associadas do que os cinéfilos normalmente gostam de admitir. Ver artigo integral no NRC Handelsblad.
JPTF 2008/03/29

março 28, 2008

Fitna (divisão, discórdia), o filme ‘explosivo‘ do deputado holandês, Geert Wilders, lançado na Internet

"Fitna", o filme do deputado holandês de direita populista, Geert Wilders, do Partido da Liberdade que, antes de ser conhecido, já causava polémica pelas suas declarações anti-Islão, foi agora divulgado no site britânico Live Leak. Trata-se de uma curta metragem de 15 minutos, de tipo documental, que começa com imagens dos atentados do 11 de Setembro e de versículos do Corão (ver artigo da Radio Netherlands). Na óptica do mundo muçulmano, será que vai ser visto como uma provocação similar às caricaturas de Maomé do jornal Jyllands-Posten, em 2005?
JPTF 2008/03/28

março 27, 2008

Ivo Andrić, ‘A Ponte Sobre o Drina‘: um excelente romance histórico sobre os Balcãs do século XVI ao início do século XX


É ao escritor e diplomata jugoslavo, Ivo Andrić, prémio Nobel da Literatura em 1962, nascido no final do século 1892 em Dolac, perto de Travnik, na Bósnia, que se deve um excelente livro de ficção histórica A Ponte sobre o Drina, originalmente publicado em servo-croata em 1945 (só em finais de 2007 apareceu a tradução em língua portuguesa...). Nesta original obra de literatura, a narrativa ficcional, que decorre sobretudo à volta de pequenos episódios da vida quotidiana, liga-os a factos históricos marcantes da Bósnia e dos Balcãs. A imaginação literária de Ivo Andrić transformou a ponte sobre o Drina - situada na pequena cidade de Višegrad, na fronteira entre a Bósnia e a Sérvia, na actual Republika Sprska - , no fio condutor de uma curiosa narrativa. Esta acompanha a rica e conturbada história da região, e situa-se no período após a conquista otomana feita no século XV. O início ocorre no século seguinte com os trabalhos de construção da ponte - uma obra arquitectónica hoje considerada património mundial pela UNESCO -, mandada construir pelo vizir Mehmed Paša Sokolović a suas expensas. Esta construção simbolizava a ligação do vizir às suas origens: Sokolović tinha sido arrancado à sua família, quando era criança, ao abrigo do "imposto de sangue" (devşirme) a que os cristãos dos Balcãs estavam obrigados pelo poder otomano muçulmano. Após a construção da ponte os acontecimentos fluem ao longo dos séculos seguintes, até à chegada dos áustro-hungaros no ultimo quartel do século XIX (1878) e aos acontecimentos trágicos da I Guerra Mundial (1914-1918). Na origem do trabalho literário concebido por Ivo Andrić detecta-se não só a influência marcante da tradição oral e dos relatos históricos de cariz popular que se podiam encontrar na sua Bósnia nativa, como a turbulência dos acontecimentos políticos que marcaram toda a sua existência. Ao longo da sua vida, Andrić assistiu ao fim dos impérios que governavam a maioria dos Balcãs – o Império Otomano e o Império Austro-Húngaro – passou por duas guerras mundiais e conheceu três "nacionalidades": nasceu como súbdito da Áustria-Hungria até 1918; depois foi cidadão do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, mais tarde designado por Jugoslávia; quando, faleceu, em 1975, era cidadão da República Socialista Federal da Jugoslávia, (re)fundada por Josip Broz (Tito) no pós II-Guerra Mundial; se tivesse podido viver até finais do século XX, teria ainda tido uma quarta "identidade", devido à metamorfose regressiva dos jugoslavos em eslovenos, croatas, bósnios, macedónios, montenegrinos, sérvios, kosovares etc., a partir de 1991.
JPTF 2008/03/27

março 25, 2008

A assimilação dos turcos (na Alemanha) é... ‘crime contra humanidade‘ e a assimilação dos curdos (na Turquia) é ...?


O líder dos conservadores-islamistas do AKP e Primeiro-Ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, faz, não invulgarmente, declarações públicas pouco usuais para um país candidato à adesão à UE. No passado mês de Fevereiro pronunciou-se sobre o problema da (não) integração dos turcos na sociedade germânica. Ao discursar perante cerca de 20.000 turcos e turco-descentes em Colónia, terá firmado que a assimilação é um ‘crime contra humanidade‘. Uma dúvida ocorre: pelo critério de Erdoğan, a política face aos curdos (‘turcos da montanha‘), prosseguida pelo seu próprio governo na Turquia é o quê ...? Adivinhem, que não é difícil.
JPTF 2008/03/25

março 24, 2008

Tibete: cartoon de Herrmann no jornal Tribune de Genève

"Hoje somos (quase) todos vítimas!" de David G. Green, Londres, Civitas, 2006


Os valores da democracia liberal estão a ser substituídos por uma cultura de "vitimocracia" no Reino Unido (sobre a expansão de similar culto na América do Norte, ver o artigo crítico de Edward W. Younkins, Multiculturalism: the Rejection of Truth and Reason). Para David Green da Civitas - The Institute for the Sudy of Civil Society, os britânicos estão a transformar-se numa "nação de vítimas", o que não deixa de ter a sua ironia, se pensarmos que ainda há menos de um século atrás eram o maior poder imperial e colonial mundial. Hoje, a soma de todos os grupos oficialmente protegidos, por serem considerados vítimas, atinge 73% da população. Alguns grupos reclamam ainda serem vítimas de múltiplas discriminações, pelo que, se as suas reivindicações fossem levadas a sério, cerca de 109% da população teria de ter o estatuto de vítima.... Para além da questão do reconhecimento da identidade, há vantagens políticas e materiais que tornam o status de "oprimido" particularmente apetecido: tratamento preferencial no mercado de trabalho, visibilidade na esfera pública e interferência no processo legislativo, compensações financeiras, e até maior facilidade de uso da polícia e do sistema judicial para silenciar as críticas mais inconvenientes. No país de John Locke e Adam Smith, a nova vitimocracia grupal está a substituir as velhas ideias liberais da autonomia e responsabilidade moral do indivíduo, que era visto como independente do grupo. Agora, o indivíduo já não é visto como um detentor de soberania moral, mas como alguém possuidor de uma característica quase "genética" (de vítima), que acompanha inexoravelmente os membros do grupo a que pertence. O sistema legal e judicial começa também a reflectir os valores da vitimocracia, afastando-se da antiga ideia da igualdade perante a lei de todos os cidadãos (por exemplo, um crime contra um membro de um grupo identificado como vítima é mais grave do que o mesmo crime contra um cidadão comum...). Resta-nos ficar à espera que estas ideias "evoluídas" sejam também copiadas em Portugal, onde a construção de uma vitimocracia pós-moderna está ainda muito atrasada.
JPTF 2008/03/24

março 21, 2008

"O Islão será a primeira religião em Bruxelas num espaço de 20 anos?" in Le Figaro

A capital europeia será muçulmana num espaço de vinte anos. É pelo menos este um cenário antecipado a semana passada pelo jornal La Libre Belgique. Actualmente, cerca de um terço da actual população de Bruxelas já é muçulmana como faz notar Olivier Servais, professor de Sociologia e Antropologia das Religiões na Universidade Católica de Lovaina. O cenário antecipado por este é que os praticantes do Islão poderão tornar-se maioritários, num espaço de duas décadas, por razões ligadas à sua forte natalidade e a uma crescente prática religiosa (e radicalização política) das gerações mais novas. Sintomático é também que, desde 2001, o nome de Maomé tem sido o mais frequentemente dado aos rapazes nascidos em Bruxelas. Ver artigo integral do jornal Le Figaro.
JPTF 2008/03/21

março 20, 2008

"Quando os Estilos de Vida Colidem", livro de Paul M. Sniderman e Louk Hagendoorn, Imprensa da Universidade de Princeton, 2007


Paul M. Sniderman e Louk Hagendoorn efectuaram um importante estudo de caso sobre a experiência multicultural mais ambiciosa da Europa: a da Holanda. Pelas razões que veremos já em seguida, o livro poderia também ter como sub-título: "o fracasso da utopia multicultural holandesa". Importa começar por notar que as conclusões dos autores são baseadas numa investigação empírica iniciada em 1998 na sociedade holandesa, não tendo qualquer ligação directa com os acontecimentos de 11 de Setembro. No cerne do livro está a maneira como a ideologia e políticas multiculturais, que marcaram a sociedade holandesa a partir dos anos 60 - e se basearam em promessas de ‘progressivismo‘ social, que eliminaria o preconceito e promoveria o reconhecimento igualitário das diferentes culturas -, é vista pelo indivíduo comum. Para além disso, são analisados os resultados das políticas multiculturais, que em muitos aspectos, acabaram por ser o oposto do pretendido. Por exemplo, no caso dos muçulmanos que emigraram para a Holanda, os resultados das políticas multiculturais foram, frequentemente e de forma paradoxal, o de preservar e promover algumas das práticas mais iliberais e conservadoras existentes nas áreas mais sub-desenvolvidas dos países de origem dos emigrantes. Ainda que involuntariamente, as políticas multiculturais legitimaram comportamentos arcaicos e práticas tradicionais de discriminação das mulheres e crianças, bem como a separação dos sexos na esfera pública. Em vez de uma integração na sociedade de acolhimento acabou por ser estimulado um crescente apartheid social, ao subsidiarem, por exemplo, a educação em escolas religiosas separadas do resto da sociedade. O estudo mostra também como multiculturalismo na Holanda nunca foi o resultado de qualquer pressão da generalidade da sociedade para a adopção dessas políticas. Pelo contrário, teve sempre, e tem hoje mais do que nunca, um grau de descontentes (muito) significativo. O seu impulso resultou de uma pretensão das elites educarem e "iluminarem" as massas, algo extremamente questionável numa sociedade democrática, baseada no princípio da soberania popular.
JPTF 2008/03/20

Mensagem atribuída a Bin Laden ameaça a Europa pela (re)publicação dos cartoons do Jyllands-Posten

março 19, 2008

Os sermões agressivos de Jeremiah Wright, o pastor de Barack Obama

A tecnologia une e a cultura divide? O diferente uso dos telemóveis pelos jovens ocidentais e muçulmanos

A mesma tecnologia, dois usos culturalmente diferentes. Nas sociedades ocidentais, o telemóvel tornou-se um instrumento de culto da irreverência juvenil, explorado até à exaustão pelas marcas. O seu uso tem vindo a acentuar o lado hedonista e materialista da cultura ocidental. Os jovens usam-no crescentemente para trocar SMS e falar com os amigos(as), namorar, marcar encontros, jogar jogos, ouvir música, tirar fotografias, descarregar toques polifónicos e imagens sexy, "destruir tabus" sexuais, navegar na internet em sites apropriados ou inapropriados para a sua idade ...

No caso dos jovens muçulmanos, o telemóvel também é um instrumento particularmente apetecível. O seu uso está igualmente a acentuar facetas marcantes da cultura muçulmana, como, por exemplo, o revivalismo da Sharia islâmica. Esta surge agora como um estilo de vida "alternativo" e "irreverente", contra a nova jahiliyya (ignorância) das materialistas e hedonistas sociedades ocidentais. Assim, em vez de música rock ou imagens sexy, aos jovens muçulmanos é proposto descarregar os hadith (ahadith no plural), as tradições relativas às acções e ditos do Profeta Maomé...
JPTF 2008/03/18

Agitação continua no Kosovo, com sinais de crescente partição de facto entre albanese e sérvios


Os confrontos ocorridos no Norte do Kosovo (Mitrovica) na passada segunda-feira, entre a população sérvia e as forças das Nações Unidas, provocaram um morto e vários feridos. Entretanto, as tropas da KFOR lideradas pela NATO assumiram o comando na região, mas não parece haver fim à vista para a escalada de agitação e violência. A paz foi restaurada em Mitrovica mas é enganadora quanto à situação no terreno. Há receios que a conflitualidade e a violência - desencadeadas à seguir à declaração unilateral de independência do Kosovo, a 17 de Fevereiro -, possam continuar no longo prazo. É o que mostram os acontecimentos desta segunda-feira. Durante várias horas, a cidade de Mitrovica, dividida entre albaneses e sérvios, pareceu estar em estado de guerra, com a explosão de granadas, o lançamento de gases lacrimógeneos, o rebentamento de cocktails Molotov e o disparo de tiros. Ver relato sobre a situação no terreno e a estratégia sérvia para lidar com a independência do Kosovo na Der Spiegel.
JPTF 2008/03/19

‘Diversidade‘ (Sharia) na Universidade de Harvard: ginásio bane homens durante seis horas para uso por mulheres muçulmanas

março 18, 2008

Quem está a islamizar a vida diária na Turquia?


O jornalista turco Mehmet Ali Birand escreveu um interessante artigo onde analisa quem está por detrás da crescente islamização da vida diária na Turquia. Na esfera pública, Emine Erdoğan, mulher do líder do AKP e actual Primeiro-Ministro, é um bom exemplo da ascensão do look islâmico (ao lado, capa da biografia publicada por Ayla Özcan). A esta junta-se agora mulher do actual Presidente da República eleito pelo AKP, Abdullah Gül, também uma adepta do véu islâmico, que agora predomina nas recepções oficiais. Mehmet Ali Birand constata que há uma cada vez maior tendência islamizadora, que se observa em pequenas coisas do dia a dia, como a recitação do Corão nas conversas correntes, o uso de uma linguagem com recurso frequente a palavras em árabe, o hábito de se referir o Corão quando se faz alguma afirmação, o número de "provérbios islâmicos" que recheiam a linguagem, a mudança do vestuário das mulheres, a substituição de bebidas alcoólicas por sumo de laranja, a recusa de apertar as mãos das mulheres, o cumprimento dos outros com a mão no coração, a crescentemente frequente separação das mulheres dos homens, etc… Ver artigo integral no Turkish Daily News.
JPTF 2008/03/18