março 01, 2008

A Queda de Marx e a Ascensão de Maomé nos Balcãs (Parte II)



A situação aparentemente insólita e paradoxal, de (re)configuração identitária dos albaneses de «marxistas» (e «maiostas») em «maometanos» (muçulmanos) - ainda por cima quando a sua população é significativamente heterogénea do ponto de vista religioso -, sugere a existência uma realidade histórica, política e sociológica bem mais complexa e do que a retratada nas análises típicas da Guerra Fria. Estas pouco ou nada conseguiam ver além do conflito ideológico entre o Ocidente e o Leste. Por sua vez, nos muitos escritos do pós-Guerra Fria sobre os Balcãs, devido às guerras que levaram ao desmembramento da Jugoslávia a partir do Verão de 1991, tenderam a prevalecer olhares parciais e leituras a-históricas sobre os acontecimentos, feitas numa linguagem e numa lógica política europeia e ocidental, alicerçada exclusivamente em conceitos, ideias e ideologias seculares como estado, nação, nacionalismo, multiculturalismo, democracia, direitos humanos, etc. Como já se pode ver pelo caso da Albânia, esta grelha de leitura é demasiado simplista e não permite apreender aspectos fundamentais do puzzle balcânico. Começando pela sua realidade histórico-sociológica, importa notar que nos actuais Estados dos Balcãs (quer nos que resultaram da divisão da Jugoslávia, como, por exemplo, a Federação da Bósnia-Herzegovina, a Macedónia e a Sérvia e o Montenegro, quer nos que são anteriores a essa situação, como a Albânia, a Grécia, a Bulgária e a Roménia), existe um número de muçulmanos, religiosos e/ou sociológicos que, no seu conjunto, atinge um valor significativo, situado algures entre os 8 e os 9 milhões. Aspecto histórico importante é que razão da sua presença na região não tem nada a ver com as grandes migrações que, nos pós-II Guerra Mundial, estão na origem das significativas comunidades de muçulmanos religiosos e/ou sociológicos que hoje existem na Europa Ocidental (num valor que se calcula ser na ordem dos 15 milhões), sobretudo em países como a França, a Alemanha, a Holanda e o Reino Unido. Inversamente deste recente Islão da Europa Ocidental, o Islão dos Balcãs é antigo e está, directa ou indirectamente, ligado à presença do Império Otomano na região, que durou cerca de cinco séculos, e que só se extinguiu com as duas guerras balcânicas de 1912-1913 e com a I Guerra Mundial. Assim, se exceptuarmos a Eslovénia, e parcialmente a Croácia, todos os Estados dos Balcãs, Hungria e Grécia incluídas, são Estados pós-otomanos, no sentido em que, ou resultaram directamente do desmembramento desse império, ou estiverem sob seu domínio por períodos de tempo variáveis e mais ou menos longos.
JPTF 2008/03/01

fevereiro 29, 2008

A Queda de Marx e a Ascensão de Maomé nos Balcãs (Parte I)




Talvez nada exemplifique melhor as surpreendentes e bastante paradoxais mudanças ocorridas nos Balcãs, após o final da Guerra Fria, do que o caso da Albânia e dos albaneses. Em 1967, Enver Hosha, o líder comunista do país, por nascimento um muçulmano, foi, enquanto governante, simpatizante da União Soviética de Estaline, e, mais tarde, a partir dos anos 60 do século XX, da China de Mao Tsé-Tung. A sua liderança colocou o país na vanguarda do socialismo-comunista ao proclamar oficialmente a Albânia como o primeiro Estado ateu do mundo, provavelmente entusiasmado com os avanços da revolução cultural chinesa na época. Para os adeptos da ideologia socialista-comunista em todo o mundo este foi um passo particularmente aplaudido, que colocou a Albânia como farol do processo de erradicação do «ópio do povo» (a religião), no famoso dito novecentista de Karl Marx. Um quarto de século mais tarde, em finais de 1992, Sali Berisha, o médico que foi o primeiro Presidente eleito livremente do país, e que actualmente é Primeiro-Ministro, também originário de uma família muçulmana, assinava, na sede da Organização da Conferência Islâmica (OCI), em Jeddah, na Arábia Saudita, o documento de adesão da Albânia a essa organização, tornando-se, desta forma, o primeiro Estado europeu a pertencer a este «clube muçulmano» (isto, se exceptuarmos a euro-asiática Turquia que é membro fundador desta organização desde 1969 e tem em Ekmeleddin Ihsanoglu o seu actual Secretário-Geral).

Desta forma, e num período de tempo que, de um ponto de vista histórico, até pode ser considerado bastante curto, a Albânia trocou Marx (e Mao) por Maomé, e substituiu os seus «antigos» ideais do socialismo revolucionário, da sociedade sem classes e da fraternidade operária, pelos «novos» ideais da solidariedade islâmica, da luta dos povos muçulmanos para a salvaguarda da sua identidade, e do desenvolvimento de acções coordenadas para salvaguarda dos Lugares Santos do Islão, contidos no texto fundador da OCI. Desta forma, passou a (re)inserir-se no Islão mundial e na umma, a comunidade universal dos crentes muçulmanos. Todavia, convém recordar que Albânia não é um país «maioritariamente muçulmano» como a Turquia, a qual «só» tem 99,8% de população muçulmana (a diversidade religiosa turca ocorre dentro do Islão, existindo, a par da maioria sunita de rito hanefi/hanefita, vários grupos heterodoxos importantes como os alevis-kizilbaxes, os bectaxis, etc.). Na Albânia, para além da diversidade dentro do Islão, existem de facto substanciais populações religiosa e/ou sociologicamente cristãs (católicos e ortodoxos) que representarão cerca de 30% da população total (não existem dados estatísticos oficiais recentes sobre a sua composição religiosa, ao que tudo indica devido à sensibilidade política do assunto). A albanesa mais célebre do século XX – Madre Teresa de Calcutá –, uma personalidade da Igreja Católica e do mundo ocidental, evidencia bem o que acabámos de afirmar: nasceu em 1910 como súbdita do Império Otomano, numa família etnicamente e linguisticamente albanesa, numa localidade próximo de Skopje, na altura a capital do vilayet (província) otomana do Kosovo e que hoje é capital da Macedónia, a ex-República Jugoslava da Macedónia.
JPTF 2008/02/29

fevereiro 27, 2008

A independência do Kosovo vista da Suíça: cartoon de Herrmann no jornal Tribune de Genève

"Cristãos acossados na Argélia" in El Pais, 27 de Fevereiro de 2008


Hace un par de meses, la paciencia del nuncio apostólico en Argelia, Thomas Yeh, y del arzobispo católico de Argel, Henri Tessier, llegó a su límite. Tomaron entonces una iniciativa sin precedentes desde la independencia, hace 45 años: organizaron una reunión con 15 embajadores occidentales en la nunciatura.

Hace un par de meses, la paciencia del nuncio apostólico en Argelia, Thomas Yeh, y del arzobispo católico de Argel, Henri Tessier, llegó a su límite. Tomaron entonces una iniciativa sin precedentes desde la independencia, hace 45 años: organizaron una reunión con 15 embajadores occidentales en la nunciatura.

Yeh les entregó una larga lista de agravios y trabas padecidos por los cristianos desde la Semana Santa de 2006. El más grave es, según la Iglesia católica, un intento encubierto de expulsión hace nueve meses. Tras recibir una circular del Ministerio del Interior, las autoridades locales, a veces el mismo wali (gobernador), convocaron en mayo a sacerdotes y monjas para, en la mayoría de los casos, "pedirles que se marchen con urgencia" del país a causa de la amenaza de Al Qaeda.

En las grandes ciudades, como Argel y Orán, y en varios remotos lugares del desierto, sólo les solicitaron que extremaran la prudencia e "informen a la policía de sus desplazamientos". "Ninguno aceptó marcharse", recalca con orgullo el documento remitido a los embajadores.

La presencia católica en Argelia es más bien testimonial. Se resume a unos miles de fieles repartidos en cuatro diócesis -Argel, Orán, Constantina y Gharadia-, en 110 sacerdotes y monjes y 175 monjas apoyados por un centenar de laicos. Se les han añadido recientemente los protestantes evangélicos, que han logrado atraer a miles de argelinos.

En Argelia hay, según algunas estimaciones, entre 70.000 y 120.000 sobre un total de 33 millones de habitantes. "Si no nos fuimos a mediados de los noventa, cuando nos mataban como chinches -19 asesinatos en dos años-, ahora tampoco hay motivos para hacer las maletas", explica un religioso.

El arzobispo Tessier pidió en mayo audiencia con el ministro de Interior, Yazid Zerhouni, y consiguió que redactase una segunda circular que rectificaba en parte la primera, que hubiese provocado un éxodo. No siempre Interior ha actuado así. En diciembre de 2006, el presidente de la Iglesia protestante de Argelia, el pastor suizo Ueli Senhauser, se vio obligado a abandonar el país al no serle renovada su residencia. Las dificultades para la obtención de visados de entrada son cada vez mayores hasta el punto de que el arzobispo de Nîmes o la madre superiora de las Hermanas Blancas han renunciado a sus viajes.

"Aunque bien intencionada, la lista del nuncio es incompleta", señala Youssef Ourahman, un pastor evangélico de Orán. "Bajo diversos pretextos a nosotros nos han cerrado siete iglesias en 2007", prosigue este argelino que se convirtió al cristianismo hace 30 años.

Desde la reunión en la nunciatura, la tendencia persiste. Pierre Wallez, un sacerdote francés, fue condenado el 30 de enero a un año de cárcel por un tribunal de Maghnia por haber rezado, un mes antes, con un puñado de cameruneses católicos que intentaban emigrar a España.

A Wallez se le aplicó una ley, aprobada hace dos años, que prohíbe cualquier culto no musulmán fuera de los edificios expresamente autorizados. Wallez rezó en medio de un bosque porque es allí donde malviven los subsaharianos. "La Iglesia católica de Argelia no comprende esta sentencia", señaló un comunicado del obispado de Orán.

Una semana después, un tribunal de esa ciudad condenó a tres pastores evangélicos a tres años de cárcel y una multa individual de 500.000 dinares (5.200 euros) por blasfemar y quebrantar la fe musulma, dos delitos recogidos en la ley de 2006.

Bouabdallah Ghamallah, el ministro de Asuntos Religiosos, insiste en sus intervenciones en que en Argelia "hay libertad de culto", pero justifica los veredictos. Los que montan iglesias clandestinas en garages, sótanos o casas particulares "caen en la ilegalidad", subrayó. "Desprecian la legislación y se colocan fuera de la ley".

"Un extranjero que pide a un argelino que cambie de religión atenta contra su dignidad", sostuvo Ghamallah ante los micrófonos de la radio pública. "Tenemos la impresión de que asistimos a un renacimiento del proselitismo del siglo XIX", se lamentó.

"Desde hace un tiempo, el proselitismo", denuncia, por su parte, el jeque Bouamran, presidente del Alto Consejo Islámico, "se ha convertido en un fenómeno más visible y cínico que antes de la independencia", cuando los padres blancos franceses recorrían el país. Por eso invitó públicamente a los servicios de seguridad a que tomen cartas en el asunto. Si la seguridad debe investigar es porque esos grupos tienen vínculos con Occidente. Los evangélicos "buscan constituir una minoría que dará un pretexto a las potencias extranjeras para inmiscuirse en los asuntos internos de Argelia", advirtió el ministro Ghamallah.

El presidente del Consejo de los Ulemas (doctores de la ley islámica), Abderramán Chiban, confirmó la injerencia extranjera cuando narró, la semana pasada, su entrevista con un diplomático de EE UU que le preguntó por "la persecución de los cristianos". "Le respondí que los musulmanes sí que están siendo perseguidos por los cristianos en sus países", afirmó con aplomo.
http://www.elpais.com/articulo/internacional/Argelia/acosa/cristianos/elpepiint/20080227elpepiint_1/Tes?print=1
JPTF 2008/02/27

fevereiro 23, 2008

"A nova invasão do Iraque" in The Independent, 23 de Fevereiro de 2007


por Patrick Cockburn

The invading Turkish soldiers are in pursuit of Kurdish guerrillas hiding in the mountains. They are seeking to destroy the camps of the PKK (Kurdistan Workers' Party) along the border between Turkey and Iraqi Kurdistan. "Thousands of troops have crossed the border and thousands more are waiting at the border to join them if necessary," said a Turkish military source.

"There are severe clashes," said Ahmed Danees, the head of foreign relations for the PKK. "Two Turkish soldiers have been killed and eight wounded. There are no PKK casualties." Turkish television said that the number of Turkish troops involved was between 3,000 and 10,000, and they had moved 16 miles inside Iraq.

But the escalating Turkish attacks are destabilising the Kurdish region of Iraq which is the one peaceful part of the country and has visibly benefited from the US invasion.

The Iraqi Kurds are America's closest allies in Iraq and the only Iraqi community to support fully the US occupation. The president of the autonomous Kurdistan Regional Government, Massoud Barzani, said recently he felt let down by the failure of the Iraqi government in Baghdad to stop Turkish bombing raids on Iraqi territory.

The incursion is embarrassing for the US, which tried to avert it, because the American military provides intelligence to the Turkish armed forces about the location of the camps of Turkish Kurd fighters. Immediately before the operation began, the Turkish Prime Minister, Tayyip Erdogan, called President George Bush to warn him.

The US and the Iraqi government are eager to play down the extent of the invasion. Rear Admiral Gregory Smith, a US spokesman for Iraq, said: "We understand [it] is an operation of limited duration to specifically target PKK terrorists in that region." The Iraqi Foreign minister, Hoshyar Zebari, claimed that only a few hundred Turkish troops were in Iraq.

But since last year Turkey has succeeded, by making limited incursions into Kurdistan, in establishing a de facto right to intervene militarily in Kurdistan whenever it feels like it.

Many Iraqi Kurdish leaders are convinced that a hidden aim of the Turkish attack is to undermine the Kurdish region, which enjoys autonomous rights close to statehood. Ankara has always seen the semi-independence of Iraqi Kurdistan, and the Kurds' claim to the oil city of Kirkuk, as providing a dangerous example for Kurds in Turkey who are also demanding autonomy.

Many Turkish companies carrying out construction contracts in the region have already left. And businesses that remain are frightened that Ankara will close Iraqi Kurdistan's lifeline over the Harbour Bridge into Turkey.

During the 1990s the Turkish army carried out repeated attacks in Iraqi Kurdistan with the tacit permission of Saddam Hussein, but this is the first significant offensive since the US invasion of 2003. "A land operation is a whole new level," said the US Deputy Assistant Secretary of State Matthew Bryza, adding that the incursion was "not the greatest news".

The Turkish army is unlikely to do much damage to the PKK, which has some 2,500 fighters hidden in a mountainous area that has few roads, with snow drifts making tracks impassable.

The Turkish ground offensive was preceded by bombing. "We were certain yesterday after this bombing that a military operation would take place and we got ready for it," said Mr Danees, adding that bombing and artillery had destroyed three bridges on the Iraq-Turkish border as well as a PKK cemetery.

Another reason why Turkey has launched its offensive now has as much to do with Turkish internal politics as it does with any threat posed by the PKK. The PKK launched a military struggle on behalf of the Kurdish minority in eastern Turkey in 1984 which lasted until the PKK's leader Abdullah Ocalan was seized in Kenya in 1999 and later put on trial in Turkey. The PKK has been losing support ever since among the Turkish Kurds, but at the end of last year it escalated guerrilla attacks, killing some 40 Turkish soldiers.

Limited though the PKK's military activity has been, the Turkish army has used it to bolster its waning political strength. For its part, the mildly Islamic government of Mr Erdogan is frightened of being outflanked by jingoistic nationalists supporting the military. Mr Erdogan has pointed out that previous Turkish army incursions into Kurdistan in the 1990s all failed to dislodge the PKK.

The area which the Turkish army has entered in Iraqi Kurdistan is mostly desolate, with broken terrain in which bands of guerrillas can take refuge. The PKK says it has left its former bases and broken up into small units. The main bases of the PKK are along Iraq's border with Iran, notably in the Kandil mountains, to the south of where the Turkish troops entered. At this time of year the villagers, many of them herders and shepherds, leave their houses and live in the towns in the plain below the mountains until the snow melts.
http://www.independent.co.uk/news/world/middle-east/the-new-invasion-of-iraq-786142.html
JPTF 2008/02/23

fevereiro 22, 2008

A desinteligência da política euro-atlântica face ao Kosovo (2): sérvios da bósnia reivindicam direito à independência


De acordo com uma notícia de hoje do jornal Le Monde, os sérvios da Bósnia querem tirar partido do precedente do Kosovo - o que não é propriamente uma surpresa -, declarando a sua independência no momento oportuno. No texto da resolução aprovada ontem pelo Parlamento da Republika Srpska, por maioria esmagadora dos seus deputados, afirma-se que "se um número significativo de membros da ONU, nomeadamente de Estados-membros da União Europeia reconhecem a independência do Kosovo" isto constitui um "precedente no reconhecimento do direito à autodeterminação, e, por isso, à secessão". No mesmo texto afirma-se ainda que a Republika Srpska "se reserva o direito de organizar um referendo, para decidir do seu estatuto como Estado." Esta resolução ameaça abrir caminho ao fim da frágil estabilização conseguida pelos Acordos de Dayton, em 1995, que pôs fim a três anos de um conflito sangrento. Desde essa altura, a Bósnia-Herzegovina foi dividida em duas entidades estaduais federadas: a Republika Srpska (ou República Sérvia) e a Federação Croata-Muçulmana, ligadas por frágeis instituições federais de Estado unificado. A Bósnia ameaça envolver-se de novo no turbilhão de conflitualidade, agora desencadeado pela independência unilateral do Kosovo.
JPTF 2008/02/22

A desinteligência da política euro-atlântica face ao Kosovo (1): violência e destruição em Belgrado

"Rússia ameaça utilizar a força se a UE e a NATO ‘desafiarem‘ as Nações Unidas" in ABC, 22 de Fevereiro de 2008


El representante de Rusia ante la OTAN, Dmitri Rogozin, consideró el viernes que Rusia podría "utilizar la fuerza" si la OTAN o la Unión Europea "desafían" a la ONU sobre Kosovo.

Por otra parte, ha dicho que "lamenta" las violencias que se produjeron en Belgrado el jueves, pero atribuyó la responsabilidad a los países que reconocieron "unilateralmente" la independencia de Kosovo, declaró el viernes el portavoz de la cancillería rusa, Mijail Kaminin, citado por la agencia Interfax.

Manifestantes incendiaron el jueves en la noche la embajada de Estados Unidos en Belgrado, donde un cuerpo carbonizado fue hallado. También se enfrentaron a las fuerzas del orden tras la gran manifestación contra la independencia de Kosovo.
http://www.abc.es/20080222/internacional-europa/rusia-amenaza-utilizar-fuerza_200802221040.html
JPTF 2008/02/22

fevereiro 21, 2008

A UE, o Kosovo e Chipre: uma estranha política externa



Para a presidência portuguesa da UE foi certamente um grande alívio que os albaneses do Kosovo tivessem aceitado transferir a sua declaração unilateral de independência para o início de 2008. A Eslovénia, um pequeno estado também saído das guerras da ex-Jugoslávia, sem poder e meios para lidar com este complexo problema diplomático, acabou por receber uma prenda envenenada na sua estreia à frente dos destinos da UE. A seguir a esta, não será difícil à França, que lhe sucederá no segundo semestre de 2008, fazer melhor figura na condução dos assuntos europeus recuperando alguma liderança europeia, como ambiciona Nicolas Sarkozy. Quanto à data de 17 de Fevereiro, tudo indica que vai ficar como uma referência importante para os actuais “conflitos congelados” em território europeu e fora dele. Desde logo pela declaração unilateral de independência do líder dos albaneses do Kosovo, Hashim Tahçi; mas também pela primeira volta das eleições presidenciais em Chipre, que levaram ao afastamento das possibilidades de reeleição do actual presidente, Tassos Papadopoulos, um crítico do Plano Annan para a reunificação da ilha.

Interessante é ligar estes dois acontecimentos em curso e a política da UE face aos mesmos. No caso do Kosovo, a linha diplomática dominante é de que as ambições de separatismo dos albaneses da região devem ser premiadas com o reconhecimento da independência. Esta é apresentada como sendo a consequência lógica da intervenção militar da NATO, em 1999, contra a Sérvia agressora de Slobodan Milosevic, bem como do Plano Ahtisaari das Nações Unidas sobre o futuro do Kosovo. No caso de Chipre, a política é, por sua vez, a de apoiar a reunificação da ilha também nos termos de um plano das Nações Unidas (o plano Annan), e não reconhecer a também proclamada unilateralmente (e até agora só reconhecida pela Turquia), República Turca de Chipre do Norte («KKTC»), em 1983. Coincidência, ou talvez não, na génese das ambições separatistas dos cipriotas turcos está também uma “operação humanitária” efectuada em 1974, para salvar os cipriotas turcos da “agressão cipriota grega e grega”. Quanto aos seus mais de 30.000 soldados no Norte da ilha são apenas uma “força de paz” como a da UE nos Balcãs (esta é a versão oficial da Turquia sobre a invasão da ilha). Sendo estas as linhas de política externa, a UE parece ter-se regozijado não só com a declaração unilateral de independência do Kosovo de Hashim Tahçi, com o afastamento de Tassos Papadopoulos em Chipre. Nos media, apesar de algumas reservas pontuais, prevaleceu também similar visão e entusiasmo quanto ao devir destas duas questões internacionais. O único problema é que tudo indica que estamos perante exercícios de wishful thinking e que o futuro destes destas questões internacionais poderá ser até bem mais complicado do que já era. Desde logo, as contradições da política externa europeia estão no cerne da questão.

A UE que, de algum modo tem por ambição federar os povos europeus, apoia não uma federação entre sérvios e kosovares com uma ampla autonomia para estes, mas a secessão destes últimos, promovendo uma Europa que, em vez de se unificar, cada vez mais se fragmenta (o Kosovo é o sexto estado a emergir da ex-Jugoslávia). A segunda contradição, também notória, reside no facto de apoiar a unificação de cipriotas gregos e turcos, ao mesmo tempo que a apoia a separação de sérvios e kosovares. A consequência natural desta política é dar argumentos e legitimar a pretensão (ilegal face ao Direito Internacional) dos cipriotas turcos sobre o reconhecimento da «KKTC», predispondo-os para a não reunificação. Na imprensa turca discute-se abertamente esta possibilidade, em contraste com wishful thinking que prevalece na imprensa portuguesa e europeia, de que o afastamento de Tassos Papadopoulos, simplisticamente esteriotipado como culpado do statu quo, vai abrir caminho à solução para o problema. Para além destas contradições, há várias consequências estratégicas a outros níveis, todas elas bem negativas. Sob uma mal disfarçada aparência de unidade – a originalidade de uma posição comum, onde não há posição comum a não ser cada estado tomar a posição que bem entende, e proclamar que “o Kosovo é um caso único e não serve de precedente” é uma coisa sui generis... –, vê-se de novo o triste espectáculo de uma (des)União Europeia do género da ocorrida em 2003, aquando da guerra do Iraque. Agora é a UE a dividir-se entre os que pretendem reconhecer o Kosovo (a nuance aqui reside no facto de os países grandes estarem de acordo) e os que não o farão, como a Espanha, a Roménia, a Bulgária, a Grécia, Eslováquia e Chipre.

Para além da fractura na UE, a independência do Kosovo está a provocar outra paralisia nas Nações Unidas (que também lembra a guerra do Iraque), não chegando, ao que tudo indica, o Conselho de Segurança a qualquer entendimento, dada a oposição frontal da Rússia e da China à independência unilateral do Kosovo (a pouca credibilidade que as Nações Unidas ainda têm cai assim ainda mais baixo). Mas se isto, só por si, já é mau, a questão tem ainda contornos piores, pois abre uma nova linha de conflito com a Rússia, dando-lhe boas razões para uma nova “guerra-fria”, e motivando-a, cada vez mais, para uma coligação com a China e outros estados descontentes com a actual ordem mundial. Quanto à Sérvia, esta atitude europeia só pode reforçar as forças políticas nacionalistas e mais radicais e fragilizar a coligação governativa de Vojislav Kostunica, enraizando o ressentimento dos sérvios face à UE. Tudo isto é negativo em termos de ambiente internacional e os europeus são a parte mais vulnerável do mundo ocidental, embora actuem como se não fossem.

Para a administração Bush, a independência do Kosovo é apenas corolário da política da administração Clinton para os Balcãs, iniciada nos anos 90. Os Balcãs estão a milhares de quilómetros, não são o México, nem a Nicarágua, nem o país tem territórios com pretensões independentistas, como acontece com vários estados europeus. Outras prioridades estratégicas se seguirão que não a Europa e, muito menos, os Balcãs (os grandes desafios que enfrentam ao seu poder estão cada vez mais no Médio Oriente e Ásia). Por razões geopolíticas óbvias, os europeus não podem pensar assim. Um estado falhado à suas portas será um desastre em termos de segurança, criando um oásis para a criminalidade comum e o jihadismo. Só que ao envolvimento da UE no Kosovo junta-se a necessidade de se envolver (leia-se integrar), a Croácia, a Macedónia, o Montenegro, a Sérvia (se esta ainda tiver vontade de aderir…), a Albânia, e a Turquia, para além das expectativas legítimas, e reforçadas pelas atitudes da UE, de adesão da Ucrânia e da Geórgia. A grande questão é como lidar com todas estas frentes estratégicas abertas ao mesmo tempo, pois a declaração de independência do Kosovo pode, com mais propriedade, ser qualificada como uma “declaração de dependência” da UE e dos EUA, a que se poderá seguir uma dependência do mundo árabe islâmico, se estas falharem nas expectativas criadas de segurança e bem-estar. Face à crescente aversão da opinião pública europeia aos alargamentos, às debilidades de funcionamento intrínsecas da UE, à crise económica e financeira e ao tenso ambiente internacional subsequente ao 11 de Setembro, é pouco provável que haja vontade, capacidade e meios de levar estas tarefas a bom termo. O que se seguirá é difícil de prever mas não dá margens para muito optimismo pela desinteligência estratégica das políticas seguidas.
JPTF 2001/02/2008

Exercícios de semântica cínica na UE: a "posição comum" do Conselho sobre o Kosovo


Que a União Europeia é um organização sui generis não é novidade para ninguém. Talvez mais surpresa seja a originalidade que parece estar a marcar as "posições comuns" e a peculiar forma europeia de respeitar a legalidade internacional, através de interpretações criativas. Nas conclusões sobre o Kosovo da reunião nº 2851 do Conselho da União Europeia efectuada em Bruxelas a 18/02/2008, podemos ler que "O Conselho saúda a continua presença da comunidade internacional baseada na Resolução nº 1244 do Conselho de Segurança". O que o texto se "esqueceu" de dizer é que na Resolução nº 1244 (1999) deste órgão das Nações Unidas se afirma, claramente, logo nas considerações iniciais, "o comprometimento de todos os Estados-membros com a soberania territorial e integridade da República Federal da Jugoslávia", o que não foi propriamente o caso. Quanto à posição comum sobre o Kosovo, uma leitura minimamente atenta do texto mostra também que esta basicamente consiste em que cada "Estado-membro vai decidir, de acordo com a sua prática nacional, e de acordo com a lei internacional, as suas relações com o Kosovo". Ou seja, numa linguagem mais "terra-a-terra" que qualquer pessoa compreende, a posição comum é cada cada um faz o que bem entende em relação ao Kosovo. Percebe-se por que a UE, com este tipo de "posições comuns" é o grande actor da política internacional que todos nós conhecemos. Vindo de uma organização preocupada com o respeito do Direito Internacional e a moralidade na política internacional, o texto não deixa de saber também a um belo exercício de cinismo político.
JPTF 2008/02/21

fevereiro 20, 2008

O Arcebispo, a Sharia, Adam Smith e a Democracia


Ao lermos o livro de Callum G. Brown, "The Death of Christian Britain" (A Morte da Grã-Bretanha Cristã, Routledge, 2000), vêem-nos à mente as recentes declarações do Arcebispo de Cantuária a favor da introdução da Sharia islâmica no Reino Unido. Face à tese sombria do livro sobre o futuro do Cristianismo, o leitor mais ingénuo terá suposto que o líder da Igreja Anglicana estaria extremamente preocupado com a situação de diminuição do número de fiéis no culto e com a perda de vitalidade cristã na sociedade. Todavia, nenhuma destas banalidades terrenas parece preocupar Rowan Williams. O que importa mesmo, segundo parece, é a ideia visionária que teve sobre a introdução da Sharia islâmica, para já em matéria de família, a qual, segundo este, melhoraria a "integração dos muçulmanos britânicos". Podemos imaginar os efeitos desastrosos que um personagem com este perfil teria à frente de uma empresa ou organização com o objectivos de cumprir a sua missão e prosperar, onde a melhor ideia que conseguia ter era... "oferecer o mercado" à concorrência. Felizmente para os accionistas da empresa ou associados da organização, certamente já teria sido despedido. Infelizmente para os anglicanos, vão ter de continuar a aguentar um líder cujo nome, tudo indica, vai ser um referência obrigatória para futuras gerações de historiadores quando tratarem o tema da "morte do Cristianismo" britânico. Mas não é só o Arcebispo de Cantuária que denota esta forma singular de pensamento estratégico, que derrota a própria organização da qual (deveria ter) a responsabilidade de fazer prosperar. Alguns elementos do governo de Gordon Brown, como o responsável pelo tesouro Alistair Darling, mostram propensão para similares medidas visionárias, ao prepararem, longe do escrutínio do cidadão comum, o lançamento de um empréstimo especial obrigacionista de acordo com a Sharia islâmica. Este será sancionado por uma fatwa de um ulema muçulmano e, por isso, livre do "pecado" capitalista dos juros, permitindo ao tesouro britânico financiar-se junto de países do Médio Oriente e, aparentemente também com o argumento de melhorar a "integração dos muçulmanos britânicos" (não é difícil imaginar o coro de protestos que se levantaria, se similar empréstimo tivesse de ser feito com a benção da Igreja - um retrocesso civilizacional, sem dúvida). Já sabíamos que o capitalismo não tem problemas éticos, nem religiosos, com ditaduras de direita (o Chile de Pinochet), nem com ditaduras de esquerda (a actual China comunista). Ficamos agora a saber que também não tem problemas éticos, nem religiosos, com teocracias islâmicas (Arábia Saudita, Emiratos Árabes Unidos, Qatar, etc.). Todavia, este crescente divórcio entre o capitalismo e a democracia liberal é um sintoma preocupante, que não augura nada de bom para o futuro das sociedades democráticas, abertas e pluralistas do Ocidente. Não será por isso grande surpresa se, no país de Adam Smith, o clássico "A Riqueza das Nações" for reescrito para compatibilizar o furor capitalista multicultural britânico com a Sharia islâmica. Não é só o Cristianismo que está lentamente a degenerar e a morrer nas ilhas britânicas, mas também a democracia liberal e secular tal como a conhecemos.
JPTF 2008/02/20

fevereiro 19, 2008

A "declaração de dependência" do Kosovo e a bizarra política euro-atlântica nos Balcãs



Um novo estado - o Kosovo - emergiu no dia 17 de Fevereiro, pelo menos para aqueles países que o reconheceram, como é o caso da maioria dos membros da UE, dos EUA, e, sobretudo, da generalidade dos países da Organização da Conferência Islâmica (OCI) - a excepção, claro, são sobretudo os que se confrontam com reivindicações separatistas sobre o seu próprio território, como, por exemplo, a Indonésia. Mas se a situação do Kosovo era problemática antes de 17 de Fevereiro, tudo indica que o vai continuar ser, pela oposição da Rússia (separatismo da Chechénia e aliança tradicional com a Sérvia), da China (separatismo de Taiwan, do Tibete, etc.), da Índia (separatismo de Caxemira), de vários membros da UE e de um número importante de outros países no resto do mundo. Pelo que foi possível ver até agora, a independência do Kosovo está a criar uma (desnecessária) fonte adicional de tensões, num ambiente internacional já bastante tenso e complexo. O seu exemplo arrisca-se a alimentar reivindicações independentistas, na Europa e fora dela, que podem por em causa a já frágil ordem e estabilidade internacional. Mas o mais paradoxal em tudo isto é a bizarra política euro-atlântica de promover a criação de um novo estado onde a população é, em termos religiosos ou sociológicos, maioritariamente muçulmana, que fica a ser o segundo estado muçulmano na Europa, a seguir à Albânia (ver o artigo de Llewellyn King "Kosovo: Now a Muslim Country in Europe"). As palavras do Secretário-Geral da Organização da Conferência Islâmica (OCI) mostram também, sem grande surpresa, a maneira diferente como é vista, numa perspectiva islâmica, a independência do Kosovo: "um activo para o mundo muçulmano" e um motivo de regozijo para a umma islâmica. Não sei se os europeus e norte-americanos pensaram nisto a médio ou longo prazo - infelizmente, parece que perderam esse hábito -, mas uma coisa parece óbvia: ou assumem a difícil tarefa de construção de um estado e de um protectorado ab eterno do Kosovo (com o necessário envolvimento político, militar e de ajuda económica e social - neste sentido a declaração de independência foi mais uma "declaração de dependência" da UE e dos EUA), ou então, mais tarde ou mais cedo, este será uma porta aberta para a projecção da influência árabe e islâmica no sudeste europeu. Pior do que isso, se o Kosovo engrossar o número de estados falhados - o facto de o primeiro país a reconhecer a sua independência (o Afeganistão), ser um estado falhado tem já a sua ironia ... -, poderá tornar-se numa porta de entrada por onde o islamismo radical e do jihadismo vão tentar entrar na UE. Será que este foi um risco calculado?
JPTF 2008/02/19

Secretário-Geral da OCI apoia a independência do Kosovo que será "um activo para o mundo muçulmano"


With regard to the declaration of independence by Kosovo yesterday, Secretary General of the Organization of the Islamic Conference Prof. Ekmeleddin Ihsanoglu made the following remark today (18 February 2008) in Dakar at the opening of the OIC Senior Officials Meeting preparatory to the forthcoming OIC Summit to be held there on 13-14 March 2008:

"…a very important event took place yesterday. Kosovo has finally declared its independence after a long and determined struggle by its people. As we rejoice this happy result, we declare our solidarity with and support to our brothers and sisters there. The Islamic Umma wishes them success in their new battle awaiting them which is the building of a strong and prosperous a state capable of satisfying of its people. There is no doubt that the independence of Kosovo will be an asset to the Muslim world and further enhance the joint Islamic action."
http://www.oic-oci.org/oicnew/topic_detail.asp?t_id=840
JPTF 2008/02/2008

fevereiro 18, 2008

"Muçulmanos kosovares pretendem reconhecimento e ajuda muçulmana" in Islam Online, 18 de Fevereiro de 2008


CAIRO — The Albanian Muslim majority in newly-independent Kosovo is appealing for swift recognition from Muslim countries as well as assistance to help sustain their new state.

"We call on the Muslim world to recognize the nascent state of Kosovo," Sabri Bajgora, the chief imam at the Islamic Sheikhdom of Kosovo, told IslamOnline.net over the phone.

Prime Minister Hashim Thaci declared the independence of Kosovo on Sunday, February 17, vowing the new state will be a democratic society that respects human dignity.

The announcement was instantly marked by fanfare.

Hundreds of thousands of flag-waving Kosovars, many returned from overseas for the occasion, poured into the snow-blanketed streets of the capital Pristina to celebrate the birth of their independent state.

Firecrackers went off sporadically, competing with folk music blaring from loudspeakers outside CD shops.

Many believe the happiness would be completed with international, particularly Muslim, recognition of Europe's newest state and world's 193rd.
"We are in urgent need of political support to preserve our independence," said imam Bajgora.

Abdullah Klinako, the leader of the Justice Party of Kosovo's youth wing, agreed.

"We need Muslim assistance to join international organizations such as the United Nations."

The US and major European powers had been expected to give swift diplomatic recognition, but EU foreign ministers are still wrangling over how to react.

At an emergency session of the UN Security Council on Sunday, Western powers resisted a bid by Serbia's ally Russia to block the independence.

Kosovo, where nearly two million Muslim Albanians make up more than 95 percent of the population, has been run by the UN since a 1999 NATO campaign ended ethnic cleansing by Serbian troops.

Helping Hand

The survival of the world's newest country – small, landlocked and economically dependent on others - hinges very much on its friends.

Aware of the fact, Kosovars are hoping fellow Muslims, especially wealthy countries, will extend a helping hand.

"We need Muslim economic support to develop our new state in all fields," said imam Bajgora.

"We need Muslim investments to create new job opportunities for young Kosovars," agreed Agron Hoxha, the owner of an internet café.

Landlocked and poor apart from mineral deposits, some 45 percent of the population subsists below the poverty line of 1.5 euros a day.

Half the workforce is in formal employment, with the rest either long-term unemployed or working unofficially.

Some 30,000 young people enter the job market every year, five times the number Kosovo businesses can absorb.

The road and rail network was neglected in Yugoslav times, fell into a total state of disrepair during the 1990s, and was partly destroyed in the 1998-99 war.

Luljeta Selim, the chairwoman of Jeta Ne Kasterjot foundation, hopes Muslims would help thousands of women who were systematically raped by Serb troops during the war.

"Kosovo also needs Muslim aid for thousands of orphans who lost their parents during the war."

http://www.islamonline.net/servlet/Satellite?c=Article_C&cid=1201958027205&pagename=Zone-English-News/NWELayout
JPTF 2008/02/18

"Muçulmanos do Kosovo saúdam a independência" in BalkanInsight.com

Kosovo should celebrate in a dignified and peaceful way its independence, and its minority communities need to be protected, says the Islamic Community of Kosovo, ICK.

In a press release issued on Friday, the chief Mufti, Naim Ternava, congratulates the people of Kosovo, and urges them to be calm and to respect each other during the celebrations.

“It would be better if everyone, including the minorities were to celebrate,” the ICK statement says, adding that “this is a historic moment to be shared by everyone”.

Kosovo’s Serb minority, who make up about 5% of the population, are opposed to independence from Serbia, which is expected to be declared on Sunday.

“There was a lot of blood and tears, and a great deal of effort to ensure this day comes,” but it notes that “the day has finally arrived”.

The ICK also thanks all allies and friends who supported the independence of the UN-administered territory by stating that “thanks to Allah, the support of our friends was there”.

The statement goes on to declare that “an independent, sovereign Kosovo, integrated in the great European family and NATO would be a better future for everyone.

“The Albanian community must extend the support and protection to the Serb community in
Kosovo, because that way we will demonstrate the highest values of our civilisation.”
http://balkaninsight.com/en/main/news/7929/?tpl=299&ST1=Text&ST_T1=Article&ST_AS1=1&ST_max=1
JPTF 2008/02/18

"O mundo após a proclamação da independência do Kosovo em 2020", segundo o jornal Krasnaia Zvezda


O diário Krasnaia Zvezda (Estrela Vermelha), órgão oficial do Ministério da Defesa da Rússia, considera que a proclamação da independência do Kosovo poderá ser um exemplo para 200 lugares na Terra.

Num artigo dedicado à questão do Kosovo “Manta de retalhos da Europa”, o jornalista Vladimir Kuzar desenha o que poderá acontecer em Berlim em 2020 se se repetir a situação no Kosovo.

“Grupos armados extremistas muçulmanos que aterrorizam os alemães de Berlim... trazem para as ruas da capital alemã correlegionários seus para exigir mais liberdade e a possibilidade de viver segundo as próprias leis” – descreve o jornal.

Como a polícia já não consegue travar a onda de violência, pede ajuda às forças armadas alemãs. Confrontos com os manifestantes levam ao derrame de sangue, que provoca indignação entre a comunidade mundial e principalmente nos países muçulmanos. Estes pedem a convocação do Conselho de Segurança da ONU, mas as suas decisões não são cumpridas.

“Então – continua o jornal – decide-se enviar para Berlim tropas internacionais de paz para a manutenção da paz, formadas pela Liga dos Estados Árabes. Sob a sua protecção, os islamitas expulsam da cidade a população alemã, criam os seus órgãos do poder, declaram o seu apego à democracia e aos seus valores e, por fim, declaram a independência de Berlim, que é reconhecida por uma série de Estados”.

Segundo o jornalista, esse cenário poderá ser considerado “louco” e estúpido” pelos leitores, mas “apenas terão parcialmente razão, porque foi precisamente segundo esse cenário não fantástico, mas real, que se desenvolveu a situação no Kosovo”.

O Krasnaia Zvezda considera que isso irá destruir a organização mundial existente e poderá transformar a Europa numa “manta de retalhos”.

“Não se trata apenas dos Estados não reconhecidos no espaço post-soviético... mas quase todos os países da Europa podem dividir-se, desintegrar-se em várias partes” – escreve o jornal militar, citando como exemplos a Espanha, Grã-Bretanha, Bélgica, França, Itália, Roménia, Dinamarca, Polónia, Suíça, Finlândia.

“Claro que nem todos os focos de separatismo existente na Europa são perigosos... mas muito deles, depois da proclamação da independência do Kosovo, ganharão tanta força que farão literalmente explodir o velho continente” – considera o diário.

O jornal russo atribuiu as culpas desta situação à política norte-americana e ao “politicamente correcto” da União Europeia. “Para os Estados Unidos é mais importante conservar a sua presença militar nos Balcãs e provocar uma “leve instabilidade” nas fileiras da União Europeia, enfraquecendo assim essa organização.

A Europa volta a cair na armadilha criada pela sua anterior política de estímulo da desintegração da URSS e Jugoslávia. E tem dificuldade em sair dela devido ao maldito “politicamente correcto” – considera o Krasnaia Zvesda.

O diário militar russo cita as palavras de Vitali Tchurkin, representante da Rússia no Conselho de Segurança da ONU, que declarou: “cerca de 200 formações poderão utilizar esse exemplo em todo o mundo.”
http://port.pravda.ru/mundo/18-02-2008/21686-futuro-0
JPTF 2008/02/18

Afeganistão foi o primeiro país a reconhecer a independência do Kosovo in BE92, 18 de Fevereiro de 2008

"We support the decision made by the people and we recognize Kosovo's independence," the troubled Asian country's Foreign Ministry spokesman said today.

This was followed by an annoucement by France after the EU ministerial meeting in Brussels today.

Reuters says that Britain, Germany and Italy followed Paris minutes later, saying they had or would imminently inform Priština of their decision.

Finland said it would be among those recognizing too.

Later during the day, U.S. Secretary of State Condoleezza Rice said that her country had formally recognized Kosovo's independence, and congratulated the "people of Kosovo".

U.S. President George Bush said Monday that the "people of Kosovo were now independent".

Bush was speaking in a live interview aired on NBC television from Arusha, Tanzania during a tour of Africa, Reuters reported.

"We'll watch to see how the events unfold today. The Kosovans are now independent. It's something I've advocated along with my government," Bush said.

Belgrade, backed by Moscow, has rejected such moves as illegal, and is seeking respect of its internationally recognized borders.

Earlier, Senators Barack Obama, Hillary Clinton and Joseph Biden all welcomed Kosovo Albanians' independence declaration.

One of the Democrats' presidential hopefuls, Clinton, called for a speedy recognition of Kosovo's independence.

Her rival, Obama, echoed the same sentiment, and added that he hoped Kosovo's authorities and people will do everything to make it a positive example of "democracy and rule of law".

Another democrat, Biden, who is the Foreign Policy Committee chair in the U.S. Senate, said he will soon call on his colleagues to join him in "expressing the Senate's support for Kosovo's independence".

Turkey was also one of the countries to support the Kosovo Albanians' moves that have been declared illegal by Serbia.

Ethnic Albanians in Kosovo Sunday declared unilateral secession from Serbia.
http://www.b92.net/eng/news/politics-article.php?yyyy=2008&mm=02&dd=18&nav_id=47809
JPTF 2008/02/18

fevereiro 17, 2008

"Efeito Boomerang": A ideologia e utopia multiculturalistas e as suas consequências


O artigo "Boomerang" de Pacheco Pereira, publicado na edição de sábado do "Público", contém reflexões importantes sobre o multiculturalismo e as suas consequências para as sociedades abertas, democráticas e pluralistas do Ocidente. Mais até do que o pedido de desculpas aos aborígenes feito pelo Primeiro-Ministro australiano (até certo ponto compreensível, apesar da encenação mediática), são sobretudo as recentes declarações do Arcebispo de Cantuária, no Reino Unido, a favor da Sharia islâmica, o melhor exemplo do "efeito Boomerang" a que está a dar origem a ideologia e utopia multiculturalistas.

Não há dúvidas que o pedido de desculpas é uma atitude típica ocidental, que tem na sua génese a marca do Cristianismo. Ironicamente, em sociedades cada vez menos cristãs, a muito cristã (e religiosa) atitude de expiação da culpa e do "pecado" está bem viva e pratica-se até de forma exacerbada. A ideologia multiculturalista foi buscá-la ao Cristianismo e transformou-a num acto de contrição que qualquer figura pública, que se queira apresentar como "progressista", deve efectuar na política-espectáculo actual. Agora, os actos de contrição e penitência não se fazem numa igreja ou confessionário, ou cumprindo promessas nos santuários da religião old fashion (Fátima, Lurdes, etc.), mas através de piedosas declarações encenadas para os media, como as do Primeiro-Ministro australiano ou as do Arcebispo de Cantuária. Tem razão Pacheco Pereira quando refere que esta atitude não tem paralelo noutras culturas. O caso da Turquia, país candidato à adesão à União Europeia, é já um bom exemplo dessa realidade cultural diferente: o "perdoa-me" pelo genocídio arménio de 1915, onde foram dizimadas cerca de 1 milhão de pessoas, não consta nem da agenda, nem do vocabulário dos conservadores-islamistas do AKP que actualmente governam o país, nem mesmo do programa dos partidos da oposição secularista que se lhe opõem. Aliás, como poderia constar, se os ocidentais têm o exclusivo da prática de genocídios?

Parece também cada vez mais claro que a ideologia multiculturalista se arrisca a ter um "efeito Boomerang" sobre os Direitos Humanos universais, ao vê-los como uma expressão da cultura ocidental e uma forma de "imperialismo cultural". Na realidade, o que há de mais genuinamente multicultural do que cada cultura ter a sua própria Declaração de Direitos Humanos, tal como cada grupo tem os seus próprios valores, que não são melhores nem piores do que os dos outros, mas apenas diferentes? Os países islâmicos, Turquia incluída, já viram a enorme janela de oportunidade constituída por esta ideologia ocidental. A par da Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas (1948) há a Declaração do Cairo sobre os Direitos Humanos no Islão (1990), derivados da Sharia islâmica, naturalmente. Por isso, o recente levantamento da proibição do uso do véu nas universidades e outras instituições públicas na Turquia, torna, sem dúvida, o país mais respeitador da Declaração dos Direitos Humanos (no Islão). Quanto aos cartoonistas dinamarqueses do Jyllands-Posten, que caricaturaram o Profeta Maomé, não respeitaram também esses Direitos Humanos, pelo que devem ser sancionados. Como o Estado dinamarquês está agarrado à "velha" Declaração universal e não os pune, um movimento de cidadãos "espontâneo" e genuinamente "multicultural", tomou a iniciativa de fazer cumprir os Direitos Humanos (no Islão). Quem somos nós para julgá-los?

Interessante é também sabermos como surgiu esta nova ideologia e utopia. Na sua raiz está a progressiva transformação da velha utopia igualitária marxista, que ruiu com o final da Guerra-Fria. O que começou nos anos 60 como uma luta progressista e justa contra a discriminação de certos grupos étnicos e sociais, transformou-se, por razões complexas, numa ideologia que pretende promover a diversidade até à exaustão em nome de uma nova utopia: a sociedade multicultural onde “todas as culturas têm igual valor” e co-existem, lado a lado, de forma paritária e harmoniosa. A luta pela igualdade e pela supressão das classes sociais deu lugar à luta pela diferença e pela promoção do grupo étnico e/ou religioso. O indivíduo deixou de ser tratado numa lógica de classe (como no marxismo), ou numa lógica de individualidade (como no liberalismo), para agora ser visto numa lógica comunitarista (multiculturalista). Como resultado, cada vez mais o grupo se interpõe entre o indivíduo e o Estado. Com este processo em marcha, que politiza deliberadamente a cultura e as relações pessoais e sociais, a democracia liberal e secular de indivíduos está progressivamente a ser corroída por dentro, nos seus valores e princípios fundadores. Em seu lugar, começa a configurar-se uma nova “democracia” étnico-religiosa, onde os direitos do grupo prevalecem sobre os direitos do individuais e se começam a impor e alterar a esfera pública.

Os efeitos (des)integradores da ideologia multiculturalista para as democracias pluralistas já foram amplamente diagnosticados e denunciados por politólogos como Giovanni Sartori e Brian Barry. Note-se que o pluralismo não é sinónimo de multiculturalismo; o pluralismo admite a diferença e é tolerante com esta mas não a promove como faz o multiculturalismo devido ao seu programa ideológico; este é um aspecto distintivo crucial. Todavia, apesar destes efeitos nefastos, a ideologia multiculturalista não é fácil de confrontar politicamente, nem pelo cidadão comum, nem até por forças políticas organizadas. Desde logo porque não se apresenta a votos – não há um “partido multiculturalista” –, o que a impede de ser derrotada, ou eventualmente sufragada, nas urnas. As actuais pressões no Canadá, Reino Unido, etc. para o reconhecimento pelo Estado da Sharia islâmica (para já, em matéria de família), mostram como a utopia multiculturalista – que os seus adeptos afirmam ser progressista, “emancipatória” e moralmente superior –, pode acabar por dar origem a um retrocesso civilizacional.
JPTF 2008/02/16