fevereiro 13, 2008

"História dos três porquinhos considerada ‘demasiado ofensiva‘", para os muçulmanos in BBC News

A story based on the Three Little Pigs fairy tale has been turned down by a government agency's awards panel as the subject matter could offend Muslims.

The digital book, re-telling the classic story, was rejected by judges who warned that "the use of pigs raises cultural issues".

Becta, the government's educational technology agency, is a leading partner in the annual Bett Award for schools.

The judges also attacked Three Little Cowboy Builders for offending builders.

The book's creative director, Anne Curtis, said the idea that including pigs in a story could be interpreted as racism was "like a slap in the face".

'Cultural issues'

The CD-Rom digital version of the traditional story of the three little pigs, called Three Little Cowboy Builders, is aimed at primary school children.

But judges at this year's Bett Award said that they had "concerns about the Asian community and the use of pigs raises cultural issues".

The Three Little Cowboy Builders has already been a prize winner at the recent Education Resource Award - but its Newcastle-based publishers, Shoo-fly, were turned down by the Bett Award panel.

The feedback from the judges explaining why they had rejected the CD-Rom highlighted that they "could not recommend this product to the Muslim community".

They also warned that the story might "alienate parts of the workforce (building trade)".

The judges criticised the stereotyping in the story of the unfortunate pigs: "Is it true that all builders are cowboys, builders get their work blown down, and builders are like pigs?"

Animal Farm?

Ms Curtis said that rather than preventing the spread of racism, such an attitude was likely to inflame ill-feeling. As another example, she says would that mean that secondary schools could not teach Animal Farm because it features pigs?

Her company is committed to an ethical approach to business and its products promote a message of mutual respect, she says - and banning such traditional stories will "close minds rather than open them".

Becta, the government funded agency responsible for technology in schools and colleges, says that it is standing by the judges' verdict.

"Becta with its partners is responsible for the judging criteria against which the 70 independent judges, mostly practising teachers, comment. All the partners stick by the judging criteria," said a Becta spokesman.

The reason that this product was not shortlisted was because "it failed to reach the required standard across a number of criteria", said the spokesman.

Becta runs the awards with the Besa trade association and show organisers, Emap Education.

Merlin John, author of an educational technology website which highlighted the story, warns that such rulings can undermine the credibility of the awards.

"When benchmarks are undermined by pedestrian and pedantic tick lists, and by inflexible, unhelpful processes, it can tarnish the achievements of even the most worthy winners.

"It's time for a rethink, and for Becta to listen to the criticisms that have been ignored for a number of years," said Mr John.
http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/education/7204635.stm
JPTF 2008/02/13

fevereiro 08, 2008

O Arcebispo pró-Sharia e a corrupção das democracias liberais e secularistas


As recentes declarações do Arcebispo de Cantuária, Rowan Williams – o principal dignitário religioso da Igreja Anglicana e um dos tradicionais pilares do estado britânico – a favor da introdução da Xária (Sharia) islâmica no Reino Unido (para já) em matéria de família, mostram uma personalidade que, ou por crise pessoal de fé na religião que representa, ou por ingenuidade política, ou ambas as coisas, não está à altura de liderar a Igreja Anglicana. Mas esse é um problema dos anglicanos e não é o lado mais preocupante da questão para a generalidade das sociedades democráticas e pluralistas. O que é mais preocupante para qualquer observador atento da sociedade britânica (como de outros países europeus e ocidentais), é que esta é apenas uma ponta visível de um processo que está a corroer, por dentro, os próprios fundamentos da democracia liberal secularista. Nesse processo, o Arcebispo de Cantuária está longe de ser um actor isolado e de ter emitido uma opinião marginal e sem apoios. Na génese da actual dinâmica de perversão da democracia liberal e secularista encontra-se uma ideologia – o multiculturalismo –, que, sob uma aparência de democraticidade, procura promover até à exaustão a diversidade, pondo lentamente em causa o próprio funcionamento das instituições e valores que suportam as sociedades abertas, democráticas e pluralistas. Os efeitos negativos da ideologia multiculturalista para as democracias pluralistas (note-se que o pluralismo não é sinónimo de multiculturalismo, o pluralismo é tolerante com a diferença mas não tem por objectivo promovê-la, ao contrário do multiculturalismo e do seu programa ideológico – este é um aspecto distintivo crucial), já foram amplamente dignosticados e denunciados por politólogos como Giovanni Sartori (Pluralismo, Multiculturalismo e Estrangeiros, 2000) em Itália e Brian Barry nos EUA (Cultura e Igualdade, 2001). Todavia, várias décadas de enraizamento desta ideologia, associadas a uma burocracia e a grupos e organismos que dizem representar comunidades e grupos minoritários, vivendo e florescendo à sombra do sistema, não são fáceis de reverter. No caso britânico, tal como acontece em outros países europeus e na União Europeia, uma elite sem rosto, sem legitimidade democrática – e, ao que tudo indica, também não reflectindo a opinião e vontade da maioria da população –, trabalha em múltiplos comités, grupos de trabalho, task-forces, organismos, etc., por trás dos bastidores, na operacionalização deste tipo de medidas de “democracia" étnico-religiosa. Quando as coisas aparecem para a opinião pública já são praticamente facto consumado, ou apresentadas como medidas inevitáveis, que é necessário tomar. Tudo indica que o terreno está agora a ser preparado desta forma para tentar abrir caminho a uma legitimação da Xária islâmica na Europa. No Canadá, em 2005, foi necessária a corajosa de acção de uma mulher, Homa Arjomand, uma iraniana fugida da revolução islâmica de 1979, que sabe muito bem o que é o carácter retrógrado e opressivo da Xária, sobretudo para as mulheres. Quanto às elites canadianas, refugiarem-se, ou ficaram bloqueadas, no relativismo fashion e falsamente tolerante da sua ideologia multiculturalista. A experiência do Canadá e agora as pressões visíveis no Reino Unido para o reconhecimento, pelo Estado, da Xária, mostram que estamos à beira de um perigoso retrocesso civilizacional que está a transformar as democracias liberais e seculares em “democracias" étnico-religiosas.
JPTF 2008/02/08

Tablóides britânicos insensíveis à proposta "visionária" do Arcebispo de Cantuária


A imprensa culta e erudita britânica (Guardian) interroga-se, justamente, se o Arcebispo de Cantuária não é um visionário deste início de século XXI, incompreendido e injustiçado neste mundo, como todos visionários. Quanto à imprensa popularucha tablóide britânica revelou, mais uma vez, uma inaceitável mentalidade pré-politicamente correcta. Não só não conseguiu compreender o carácter sublime da ideia visionária de Rowan Williams, de instalar a (Sharia) Xária no Reino Unido, como teve o desplante de efectuar sondagens de opinião (Daily Mail), com perguntas deste género:

"Qual destes dois homens constitui a maior ameaça ao modo de vida britânico": Abu Hamza (islamista radical do Londonistão) ou Rowan Williams (o Arcebispo de Cantuária)? A escolha é obviamente difícil mas os leitores do site do Daily Mail parecem estar inclinados a considerar que Arcebispo é mesmo o mais perigoso...
http://www.dailymail.co.uk/pages/live/articles/pollsanddebates/pollsanddebates.html?in_page_id=2006
JPTF 2008/02/08

"Arcebispo de Cantuária pede que partes da Sharia sejam adoptadas no Reino Unido" in Telegraph, 8 de Fevereiro de 2008


The Archbishop of Canterbury has been widely criticised after he called for aspects of Islamic sharia law to be adopted in Britain.

Dr Rowan Williams said that it "seems inevitable" that elements of the Muslim law, such as divorce proceedings, would be incorporated into British legislation

The Archbishop's controversial stance has received widespread criticism from Christian and secular groups, the head of the equality watchdog, several high-profile Muslims and MPs from all parties.

Amid the storm of protest, Downing Street moved quickly to distance itself from the Archbishop's remarks, insisting that British law would and should remain based on British values.

A spokesman for Mr Brown said: "Our general position is that sharia law cannot be used as a justification for committing breaches of English law, nor should the principles of sharia law be included in a civil court for resolving contractual disputes.

"If there are specific instances like stamp duty, where changes can be made in a way that's consistent with British law and British values, in a way to accommodate the values of fundamental Muslims, that is something the Government would look at.

"But the Prime Minister believes British law should apply in this country, based on British values."

Andy Burnham, the Culture Secretary, said Dr Williams was "wrong" to advocate the adoption of elements of sharia law.

"This isn't a path down which we should go. The system, the British legal system, should apply to everybody equally. You cannot run two systems of law along side each other. That in my view would be a recipe for chaos, social chaos," he said on BBC1's Question Time.

"British law has to be based on British values. If people choose to live in this country, they choose to abide by that law and that law alone. It has got to be fundamental and a cornerstone of our country and our democracy that everybody is equal before that one system of British law."

The storm of protest which started after the Archbishop's comments on the BBC's The World at One shows no signs of abating.

"The Archbishop's thinking here is muddled and unhelpful," said Trevor Phillips, the chairman of the Equality and Human Rights Commission.

"Raising this idea in this way will give fuel to anti-Muslim extremism and dismay everyone working towards a more integrated society."

Baroness Warsi, the shadow minister for community cohesion and social action, said: "The Archbishop's comments are unhelpful and may add to the confusion that already exists in our communities.

"All British citizens must be subject to British laws developed through Parliament and the courts."

The storm of protest which started after the Archbishop's comments on the BBC's The World at One shows no signs of abating.

"The Archbishop's thinking here is muddled and unhelpful," said Trevor Phillips, the chairman of the Equality and Human Rights Commission.

"Raising this idea in this way will give fuel to anti-Muslim extremism and dismay everyone working towards a more integrated society."

Baroness Warsi, the shadow minister for community cohesion and social action, said: "The Archbishop's comments are unhelpful and may add to the confusion that already exists in our communities.

"All British citizens must be subject to British laws developed through Parliament and the courts."

Jacqui Smith, the Home Secretary, said: "I think there is one law in this country and it's the democratically determined law.

"That's the law that I will uphold and that's the law that is at the heart actually of the values that we share across all communities in this country."

Sharia is the body of Islamic law implemented in some Muslim countries, including Saudi Arabia, Libya and Sudan. In some, it is associated with draconian punishments for crimes such as theft, adultery or blasphemy, such as amputation of limbs, death by stoning or use of the lash.

In Afganistan, a student who downloaded a report on women's rights from the internet is facing the death penalty.

Women's rights are curtailed in many countries. Some interpretations of the law mean women have to cover themselves from head to toe in burkhas when they go out.

The Archbishop provoked the row by saying Britain had to "face up to the fact" that some citizens did not relate to this country's legal system and argued that officially sanctioning sharia law would improve community relations.

He said there was an argument that aspects of sharia law, such as those involving divorce, financial transactions and the settling of disputes, could be accommodated with British legislation.

Speaking before a speech on the issue Dr Williams said: "Nobody in their right mind would want to see in this country the kind of inhumanity that has sometimes been associated with the practice of the law in some Islamic states.

"But there are ways of looking at marital disputes, for example, which provide an alternative to divorce courts as we understand them."

Khalid Mahmood, the Muslim Labour MP for Birmingham Perry Barr, said: "This is very misguided. There is no half-way house with this.
"What part of sharia law does he want? The sort that is practised in Saudi Arabia, which they are struggling to get away from?

"Muslims do not need special treatment or to be specially singled out. This would not contribute to community cohesion."

Some senior Muslim clerics are pressing for the introduction of Islamic penal law with its often brutal punishments.

However, religious groups and secularists attacked the Archbishop, saying that his comments were "baffling and bewildering" and would undermine social cohesion. Stephen Green, the director of Christian Voice, said: "This is a Christian country with Christian laws. If Muslims want to live under sharia law then they are free to emigrate to a country where sharia law is already in operation."

But Dr Williams said the argument that "there's one law for everybody" was "a bit of a danger" and called for "a constructive accommodation" with aspects of Muslim law.

The Church of England was allowed to operate its own courts, as were Orthodox Jews, and the anti-abortion views of Roman Catholics and other Christians were taken account of within the law. "I do not think we should instantly spring to the conclusion that the whole of that world of jurisprudence and practice is somehow monstrously incompatible with human rights just because it doesn't immediately fit with how we understand it."

It was "not at all the case that we have absolute social exclusion. We do have a lot of social suspicion, a lot of distance and we just have to go on working at how that shared citizenship comes through".

The Bishop of Rochester, Dr Michael Nazir-Ali, said last month that non-Muslims faced a hostile reception in places dominated by the ideology of Islamic radicals. He has since faced death threats.

Dr Williams appeared to suggest that sharia law should be recognised as an officially sanctioned alternative to British law in areas such as marriage, divorce and inheritance.

Legal experts said that it was already possible for Muslim couples contemplating a divorce to seek mediation from an imam and, if both consent, his ruling on their settlement can have a binding effect.

But they said Dr Williams seemed to be proposing that the British courts may also recognise sharia law on divorce, in which the husband can end a marriage by saying to his wife three times "I divorce you". Such reforms could also legalise polygamy for Muslims in the country.

http://www.telegraph.co.uk/news/main.jhtml?xml=/news/2008/02/08/nrowan308.xml
JPTF 2008/02/7

fevereiro 04, 2008

Reino Unido vai usar novilíngua na guerra ao terrorismo


Um novo glossário de contra-terrorismo está a ser distribuído aos burocratas e diplomatas britânicos. A novilíngua contra-terrorista, parece saída do Ministério da Verdade imaginado por George Orwell, o escritor britânico da primeira metade do século XX que escreveu a célebre obra de ficção "1984" (originalmente era uma sátira aos totalitarismos de tipo soviético). A ironia é que hoje são democracias liberais como a britânica, com um profundo historial de liberdade - mas cada vez mais corroidas por dentro pela ideologia politicamente correcta -, quem parece estar a recorrer a técnicas orvelianas para conformar a forma de pensamento e de expressão dos seus cidadãos. Assim, o governo de Gordon Brown vai iniciar o uso oficial de uma novilíngua que se propõe abandonar a antiga "retórica agressiva" do que até agora conhecíamos pelo nome de "guerra ao terror". O glossário sobre a nova forma de pensar e falar é dirigido especialmente ao funcionalismo público. (Espera-se que depois se possa alargar à imprensa, através dos assessores e agências de comunicação e, por essa via, também educar o indivíduo comum, sempre propício a usar expressões politicamente incorrectas.) Na novilíngua foi banido o uso de expressões como "extremismo-islamista" ou "fundamentalismo jihadista". Agora, as expressões aconselhadas são "extremismo violento" e "assassinos criminosos". Qualquer cidadão-modelo deve também esforçar-se por utilizá-las. Algumas ONG´s islamistas-jihadistas britânicas, apoiadas por diversas filiais noutros Estados da União Europeia, reagiram mal a esta iniciativa do governo trabalhista britânico, acusando-o de jihadofobia. Consideram que a sua identidade está a ser mal representada, pelo que estão a ponderar a possibilidade de recorrer ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Todavia, esta crítica é muito exagerada. Com esta brilhante estratégia britânica que, com um só golpe linguístico, varreu do mapa os islamistas-jihadistas da Al-Qaeda e outros grupos afins (Bin Laden está a tremer de medo nas montanhas de Tora-Bora, receando os efeitos devastadores que este glossário vai ter nas suas hostes), a "guerra ao terrorismo" está ganha. Ninguém duvida que esta mudança semântica tem os efeitos de uma eliminação física. Já podemos todos voltar a preocupar-nos só com coisas verdadeiramente importantes como o futebol.
JPTF 4/02/2008

fevereiro 02, 2008

"Valores europeus" usados para reislamizar a Turquia?

"A Revolução Islâmica no Ocidente: os árabes nunca invadiram a Espanha."



Está-se sempre a aprender ao longo da vida. Com o livro de Ignacio Olagüe Les arabes n´ont jamais envahi l´Espagne, na tradução espanhola estimulantemente (re)convertido em La Revolución Islamica en Occidente. El Mito de La Invasión Árabe de España, então ainda mais. Na sua modesta conclusão para um trabalho desta envergadura, Ignacio Olagüe afirma que "não foi a expansão do Islão para o Ocidente o resultado de uma sucessão de invasões militares milagrosamente conseguidas, mas o resultado de um clima revolucionário que permitiu o nascimento de novos conceitos. Por isso, pode-se concluir que os acontecimentos políticos concebidos como consequências de acções guerreiras são aparentes, como o são certos fenómenos físicos e biológicos". Tendo estabelecido esta nova "verdade histórico-científica", Olagüe aponta também novos caminhos à historiografia francesa e mundial: "Depreende-se da nossa rectificação um ensinamento e interessa à história de França... e para além dela à história universal. Perde o lugar até agora transcendental que até agora havia ocupado nos anais da história da humanidade a batalha de Poitiers, na qual Carlos Martel rompeu com a expansão dos árabes no Ocidente. Pois seria muito extraordinário que este guerreiro tivesse aniquilado os seus exércitos, se anteriormente estes não se encontravam na Península Ibérica... e com antecipação no Norte de África. Com maior verosimilhança tratou-se de um simples combate a que se opuseram gentes do Norte e do Sul das Gálias". Brilhante! Só me interrogo como centenas de historiadores antes da era Ignacio Olagüe (a. I.O.) não puderem ver isto. Afinal, para qualquer espírito aberto a novas ideias é fácil perceber que não podiam ter atravessado o larguíssimo estreito de Gibraltar. Como é que um povo tribal e atrasado como os árabes teria engenho e arte para o fazer?

Mais impressionado do que um leigo como eu, ficou o jovem historiador espanhol da Universidade de Sevilha, Emilio González Ferrín. Na sua recente Historia General de Al-Andalus (2006), recuperou a tese Ignacio Olagüe, originalmente editada em 1964, em Paris. Temerariamente, González Ferrín não se deixou afectar psicologicamente pelo facto de outros investigadores mais séniores, como Dolores Bramon, professora de Estudos Islâmicos da Universidade de Barcelona, terem qualificado o livro como um conjunto de "disparates sobre o Islão" e uma "obra de ciência-ficção" em vez dum livro de História. Como um inovador que rompe tabus nos estudos árabes-islâmicos, partilha da ideia que não houve invasão muçulmana no ano 711. No seu volume de mais de 600 páginas parece também não discordar da ideia de Olagüe que o "Islão andalusiano nasceu em consequência de uma evolução espontânea do Cristianismo hispânico". Mas Olagüe vai mais longe, pois, como diz Dolores Bramon, sustenta que processo de geração espontânea "desembocou numa guerra civil entre unitários e trinitários, cuja documentação teria sido destruída pela intelligentzsia do Vaticano". Confesso que esta nova hermenêutica, com um pouco de teoria da conspiração à mistura, é bem mais vibrante do que a antiga. Para além de me causar um certo frisson, faz-me lembrar aquele monumental trabalho de investigação histórica, que é o Código Da Vinci, de Dan Brown. Voltando a Olagüe, como explica González Perrín, este, mesmo "sem ser arabista ou islamólogo", conseguiu captar "na perfeição o modo como o Islão se cristalizava muito mais tarde no Al-Andalus - e não em 711 -; pôs de quarentena essa pretensa invasão" (p. 81). Não há dúvidas que nada será como dantes no estudo do Al-Andalus. O editor do livro bem nos tinha avisado num panfleto divulgativo: "A Revolução Islâmica no Ocidente de Olagüe, marca um antes e um depois na História. A História Geral do Al-Andalus também o fará." Dan Brown que se cuide que a concorrência começa a apertar e a ficar mais sofisticada: já usa notas de rodapé, bibliografia e tem uma aparência científica.
JPTF 2008/02/02

fevereiro 01, 2008

Al-Andalus: ‘O mito do paraíso andalusiano‘ em questão


Chateaubriand e Washington Irving têm uma brilhante sucessora pós-moderna na professora de Literatura Espanhola e Portuguesa na Universidade de Yale, María Rosa Menocal. No seu livro Ornament of the World. How Muslims, Jews and Christians Created a Culture of Tolerance (Ornamento do Mundo. Como Muçulmanos, Judeus e Cristãos Criaram uma Cultura de Tolerância, 2002), dá-nos uma magistral "lição de História" sobre a convivencia, lado a lado, das três culturas (muçulmanos, cristãos e judeus) no Al-Andalus e as realizações culturais dos árabes-berberes da Península. Já tinha essa impressão do livro de Juan Vernet, Lo que Europa debe al Islam de España (1999), mas agora, com María Rosa Menocal, fiquei mesmo convencido. Na escola andavam-nos a enganar sobre o nosso passado! Nem o Renascimento teve origem nas cidades do Norte de Itália, nem a revolução científica teve as suas bases no Ocidente do século XVII, nem o Iluminismo foi inventado pelos arrogantes filósofos franceses no século XVIII, nem o diálogo inter-religioso das três religiões abraâmicas foi criado pelo Concílio Vaticano II, nem sequer o multiculturalismo e as políticas de identidade pós-modernas, derivadas do pensamento de Foucault, Derrida e outros, afinal têm nada de original. Já tudo isto existia, de alguma maneira, no Al-Andalus. Quando aos nativos da península, os cristãos hispano-visigóticos e outros indígenas, eram sem dúvida uns rústicos agressivos e pobres de espírito, que só podiam ter ficado gratos à mission civilisatrice e ao "Iluminismo" dos conquistadores árabes-berberes. Aqueles que sustentaram que "todas as culturas são boas", como os antropólogos culturais Frank Boas, Margareth Mead e Claude Lévy-Strauss andaram a fazer ao longo de décadas, estão errados. A investigação "estórica" de María Rosa Menocal mostra convincentemente como há culturas superiores (a árabe-muçulmana) e outras inferiores (a cristã-latina).

Estranhamente, há ainda alguns escritores e professores de Literatura que não aceitam esta narrativa científica e escrevem coisas absurdas como esta: "A existência de um reino muçulmano na Espanha medieval onde diferentes raças e religiões viviam harmoniosamente em tolerância multicultural, é um dos mitos hoje mais espalhados. Os professores ensinam-no nas universidades. Os jornalistas repetem-no. Os turistas que visitam o Alhambra aceitam-no [...] O problema com esta crença é que é historicamente infundada, um mito. As realizações culturais fascinantes da Espanha muçulmana não podem obscurecer o facto de que esta nunca foi um exemplo de convivencia pacífica." (p. 23). Assim começa irritantemente contra a corrente, o artigo de Darío Fernandéz-Morera, professor de Espanhol e Português e de Literatura Comparada da Northwest University dos EUA, publicado em finais de 2006 na Intercollegiate Review o artigo The Myth of the Andalusian Paradise (O Mito do Paraíso Andalusiano). Adivinha-se que o artigo não fará parte da bibliografia utilizada por escritores, poetas e comentadores políticos românticos e outros não tão românticos, que andam a transformar subtilmente estórias (contos, narrativas) em História. A sua leitura é também (des)aconselhada para os crentes no mito da convivencia e para todos que pretendem (re)construir o passado à luz da ideologia multicultural do presente. O seu efeito pode ser mais traumático do que dizer a uma criança que o Pai Natal nunca existiu.
JPTF 2008/02/01

janeiro 30, 2008

A desconstrução do imaginário romântico do Al-Andalus: as estórias de mouros e princesas cristãs de Chateaubriand


Na transição do século XVIII para o século XIX, várias almas sensíveis atormentadas com os avanços do cosmopolitismo das Luzes, da Razão, dos Direitos Humanos universais, e, sobretudo, alarmadas com a Revolução Industrial e o crescente igualitarismo liberal, refugiaram-se num passado, real ou imaginado (a maior parte das vezes imaginado). Uma destas almas sensíveis, que empreendeu uma “fuga para trás” – e, por isso, é justamente considerada como fundadora do romantismo francês –, foi a de François-René, mais tarde visconde de Chateaubriand (1768-1848).

Em inícios do século XIX, após uma viagem a Espanha, Chateaubriand descobriu o paraíso perdido do Al-Andalus, sentindo uma enorme nostalgia da "brilhante civilização árabe", ao fazer o grand tour na exótica Andaluzia. Por essa época, outros românticos descobriam também paraísos perdidos no exótico Próximo Oriente, dominado pelos turcos otomanos, quando faziam o grand tour mais em moda pelo Mediterrâneo oriental. Rapidamente a imaginação romântica de Chateaubriand engendrou um drama que sabe um pouco a um déjà vu Shakesperiano. Em Les aventures du dernier Abencérage, o cenário não foi a cidade italiana de Verona no Renascimento, e os amores impossíveis entre as famílias rivais dos Montéquios e dos Capuletos. O cenário foi a Granada do ex-Al-Andalus (a Península Ibérica muçulmana), após a reconquista cristã dos reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela, e a queda do último sultão muçulmano da dinastia Nasrida, Abu Abd Allah (mais conhecido por Boabdil), em 1492. No imaginário romântico de Chateaubriand, este deve ter sido um episódio doloroso que lhe partiu a alma quando deambulou por Granada. Pela pena do escritor-poeta surgiu então uma princesa cristã (Blanca) apaixonada por um nobre árabe, designado no conto por mouro, Aben-Hamet. Este era o último representante da família dos Abencerrages - nome que vem de "Beni Seraj", uma tribo árabe que terá habitado Córdoba e depois Granada, desde os tempos da conquista do século VII, e rivalizava com a tribo dos Zegris. Os Abencerrages teriam sido dizimada por Boabdil, numa lendária versão mourisca que lembra a vendetta entre Montéquios e Capuletos. (Os confrontos étnico-religioso entre muçulmanos não são propriamente uma novidade da Palestina, do Iraque ou do Afeganistão de hoje.) Como é habitual, para dar intensidade dramática a este tipo de narrativas românticas de amores impossíveis, na família de Blanca corria nas veias o sangue cristão e católico de El Cid e na família de Aben-Hamet o sangue árabe e muçulmano, supõe-se sunita, dos nobres Abencerrages.

A estória, situada algures durante o século XVI, durante o reinado do Imperador Carlos V de Espanha, da casa real dos Habsburgos, inicia-se com Aben-Hamet em Tunis, perto de Cartago, para dar mais grandiosidade histórica ao romance. Este, apesar da sua juventude, já tinha a alma despedaçada por estórias das glórias da família em Granada e sobre a beleza do local. Assim, meteu-se ao mar resolvendo ver como era a terra dos seus antepassados na outra margem do Mediterrâneo. Mal chega a Granada cruzou-se na rua com Blanca, e é amor à primeira vista entre os dois. Amor impossível, obviamente, dado ela ser cristã e ele muçulmano, ela ser descendente do Cid e ele dos Abencerrages (na altura ainda não existia a Aliança de Civilizações de Zapatero-Erdoğan, pelo que estes dramas eram bem reais). O enredo decorre com os habituais episódios de passeios pelos amantes em palácios encantados (o inevitável Alhambra), excursões por jardins, fontes e recantos com ciprestes e buganvílias, visitas a cemitérios com inscrições em alfabetos exóticos e meio apagadas nas tumbas. No final, o leitor mais sujeito a comoções é poupado a um remake da tragédia de Romeu e Julieta: aqui os amantes apenas se separam, num doloroso e comovido adeus, seguindo cada um o seu caminho nas duas margens do Mediterrâneo.

A Literatura, incluindo a romântica, faz inquestionavelmente parte de um rico património cultural da humanidade e integra, de pleno direito, uma verdadeira cultura humanística. Sem esta, o ser humano seria bem mais pobre de imaginação e de pensamento criativo. O único problema é quando uma imaginação literária e romântica - emotiva e comovente, ou patética e lamechas, consoante os gostos estéticos e literários -, se começa a transformar, subtilmente, numa fonte de “factos históricos” e a influenciar a opinião pública como tal. É essa a sensação que fica quando lemos comentários políticos que apelam ao conhecimento histórico, como o de Miguel Sousa Tavares sobre “A Morte do Islão”, e percebemos o imaginário romântico que lhe está subjacente que transforma, sob a forma de uma escrita elegante, estórias (contos, narrativas) em História.
JPTF 2008/01/30

janeiro 29, 2008

O Al-Andalus (não tão) romântico de Osama Bin Laden


Osama Bin Laden também se interessa bastante pelo Al-Andalus, mas não é dado a devaneios românticos, nem parece ter muita paciência para estórias sobre jardins de "buganvílias de todas as cores que hão-de cobrir os muros" do palácio de Córdoba. Nesta compilação e tradução para língua inglesa das suas "mensagens ao mundo", feita por Bruce Lawrence, este vai directo ao assunto e diz, sem rodeios, que quer de volta todas todas as terras islâmicas roubadas, da Palestina ao Al-Andalus (p. 14): "[Pedimos] a Deus Todo-Poderoso para responder à nossa luta pela verdade e que nos forneça os seus seguidores. Nós pedimos-lhe para mostrar os mentirosos e as suas mentiras, e para ajudar-nos a evitá-los, e a estabelecer uma ordem de conduta para a nossa umma na qual aqueles que Lhe obedecem serão louvados e aqueles que lhe desobedecem serão humilhados e no qual o bem é abraçado e o mal rejeitado, e na qual a justiça é feita e a verdade falada, e na qual a bandeira da jihad é erguida bem alto para restaurar à nossa umma o orgulho e a honra, e na qual a bandeira da unidade de Deus é levantada novamente em cada terra islâmica roubada, da Palestina ao Al-Andalus [...]". Para os espíritos mais românticos, esta é uma leitura aconselhável como forma de regressarem à rapidamente realidade e não confundirem estórias (contos, narrativas), com História. E a falta de domínio da língua inglesa também não é desculpa pois existe uma tradução portuguesa publicada pela Temas & Debates.
JPTF 2008/01/29

janeiro 27, 2008

O Al-Andalus romântico de Miguel Sousa Tavares



Miguel Sousa Tavares (MST) intitula a sua crónica semanal de 26/01/2008 para o "Expresso" de "A Morte do Islão". O título é em si mesmo paradoxal, pois é notório que o Islão do século XXI, seja ele religioso ou político, está em plena expansão demográfica e, sobretudo, em grande efervescência política, ou seja, por outras palavras, está sociologicamente bem vivo (se nos agrada ou não o caminho que tem vindo a seguir isso é outra coisa). A propósito dos atentados que os islamistas-jihadistas paquistaneses se preparavam para efectuar em Barcelona, MST refere que o actual Islão está refém de “uma casta teocrática de barbudos que odeiam a vida e tudo o que representa o progresso que os seus antepassados celebraram no Al-Andalus.” Face ao desaparecimento dessa “brilhante civilização árabe da Península”, interroga-se este, “para onde foram os geógrafos, os cartógrafos, os físicos, os matemáticos, os arquitectos que fizeram o apogeu do Al-Andalus?” Quer dizer, na crónica de MST, a “morte do Islão” actual – e a mensagem que este pretende transmitir aos leitores –, adquire sentido sobretudo por contraponto com o (fascinante) Islão do Al-Andalus que este descreve. Aqui reside a parte mais problemática da crónica de MST. O texto está imbuído duma visão literária e romântica, a qual, de facto, tem uma longa tradição de celebração no espírito de escritores e poetas desde o século XIX, com Les aventures du dernier Abencérage de François-René (visconde de Chateaubriand), Les Orientales. Les Feuilles d'Automne de Victor Hugo e de Tales of the Alhambra de Washingtong Irving, entre vários outros. Em Portugal, este romantismo literário e estético novecentista, influenciou, por exemplo, os arquitectos do palácio da pena, em Sintra, e do salão árabe do palácio da bolsa, no Porto. Por isso, integra também o imaginário do grande público que está tendencialmente receptivo a aceitar a descrição “histórica” da crónica. Todavia, como estamos a falar de questões históricas e políticas e não a discutir movimentos estéticos e qualidades literárias (que MST inquestionavelmente tem), impõe-se chamar à atenção de que este imaginário só muito parcialmente é suportado pela factualidade histórica.

O Al-Andalus foi uma plataforma transmissora de conhecimentos para a Cristandade Ocidental, nomeadamente ao nível da herança cultural helénica. O símbolo máximo desse processo foi Averróis (Ibn Rushd), no século XII. Mas aqui existe uma primeira nuance a ter em conta. Averróis é menosprezado pelos actuais islamistas (e não só), que o consideram uma “sombra da filosofia grega” (a expressão é do principal ideólogo dos Irmãos Muçulmanos Sayyid Qutb). Quer dizer, este não é visto como um genuíno representante da tradição islâmica. Para além disso, importa notar que o vasto património cultural e científico helénico (tal como o da Pérsia e o da Índia), foi apreendido e transmitido pela civilização islâmica, mas não tanto integrado na sua identidade. Esse é um aspecto crucial. Por outro lado, nesse papel de transmissão, foram particularmente importantes as populações cristãs árabes do Médio Oriente. A tradução começou a ser feita no século VIII, na língua síria, num Império Árabe, onde a maioria da população nessa época era ainda cristã, um facto frequentemente negligenciado. Ou seja, o património cultural helénico que circulou pelo Império Árabe medieval até à Península Ibérica (Al-Andalus), teve, em boa parte, por base trabalho de tradutores árabes cristãos, pelo seu domínio das línguas. Outro exemplo, o que chamamos “numeração árabe” e que a Cristandade Ocidental absorveu por contacto com o Islão, é originalmente um criação hindu, com contributo persa. Mais uma vez o continuum árabe islâmico, que existia desde o Norte da Índia até à Península Ibérica, funcionou como plataforma transmissora de conhecimentos, com origem sobretudo nas civilizações orientais (Índia e China). Daí que, sem grande surpresa, quando os portugueses e espanhóis, com as grandes viagens marítimas feitas a partir do século XV, chegam directamente ao contacto com a África sub-sariana, as Américas, Índia e a China, o papel do Islão – que foi historicamente mais o de um assimilador e transmissor de conhecimentos do que o de um produtor original de conhecimento –, se tornou progressivamente irrelevante. A relevância só regressou no século XX, agora com a emergência da economia baseada no petróleo.

A influência do romantismo literário à la dixneuvième siècle, o qual foi, em grande parte, um movimento de reacção à modernidade tecnológica da revolução industrial, ao cosmopolitismo Iluminista e aos ideário universalista dos Direitos do Homem, está também bem patente na descrição que este faz de Córdoba: “Transformada pelos cristãos em mesquita catedral, a fantástica beleza despojada da construção original, com as suas 988 colunas de mármore suportando cúpulas de azulejos trabalhados em motivos geométricos, foi para sempre pervertida por essa ostentação oca das catedrais [...]” A seguir, MST interroga-se: “pela enésima vez penso nesse insondável mistério da história: porque é que uma derrota militar, e mesmo a retirada para o lado de lá do estreito, foi capaz de significar a derrota de uma civilização tão brilhante quanto a civilização árabe da Península?” Este “insondável mistério da história” que o aflige, não é muito difícil de desvendar com recurso à história europeia e das civilizações do Mediterrâneo. Em termos globais, a civilização árabe estava em acentuado declínio muito antes da derrota de 1492. Se há um marco crucial da decadência árabe, este não é certamente 1492 (Granada) ou sequer 1236 (Córdoba), no Al-Andalus – apesar da sua óbvia importância –, mas 1258 na Mesopotâmia. E o golpe mais fatal não foi dado nem por cruzados, nem pela reconquista cristã de portugueses e espanhóis, mas pelos exércitos Mongóis liderados por Hulagu Khan, que conquistaram e saquearam Bagadade e destruíram o Califado Árabe dos Abássidas (Osama Bin Laden sabe isso). Aliás, foi nesse contexto histórico, por reacção à conquista mongol e à ameaça de extermínio do império árabe (e não propriamente devido às cruzadas ou à reconquista cristã da Península), que Ibn Taymiyya, o teólogo-jurista muçulmano medieval mais apreciado pelos islamistas-jihadistas, desenvolveu uma teorização da jihad que é fonte de inspiração para a actual ideologia islamista.

MST interroga-se também "Onde está a harmonia, o equilíbrio, a homenagem à vida que o Islão espalhou por toda a Andaluzia?" Por esta interrogação deduz-se que na sua estória do Al-Andalus a destruição e saque cidade de Santiago de Compostela (907) pelos exércitos de Almanzor (Abu Emir Muhamad), os massacres e pilhagens dos bens de cerca de 6.000 judeus de Granada (1066), o período dos Almorávidas "al-murabitin" (séculos XI e XII) e o dos Almóadas que lhe sucederam, "os que crêem em Alá" (séculos XII e XIII), marcados por um rigorismo religioso próximo do fanatismo e os raides que levavam à captura e comércio de escravos não terão existido... Quanto à transformação da mesquita em catedral e à extinção de uma civilização brilhante no Al-Andalus, este não foi mais do que um processo histórico normal no contexto da época em que decorreu. (Já agora, MST não o diz, mas a mesquita de Córdoba foi construída no lugar de uma antiga igreja visigoda da cidade, a basílica de São Vicente, demolida pelos conquistadores árabes-berberes). Recorda-se que um processo idêntico ocorreu praticamente no mesmo tempo histórico, no outro extremo do Mediterrâneo. Este levou a que a expansão imperial dos turcos otomanos aniquilasse a igualmente brilhante civilização cristã bizantina, que tinha as suas raízes na Antiguidade Clássica heleno-romana. E a que, em nome do Islão, a mais imponente basílica da Cristandade Ortodoxa – Santa Sofia de Constantinopla –, fosse transformada numa mesquita, no ano de 1453, por Mehmet Fathi (o conquistador). Mesmo sem terem escritores de vulto como Chateaubriand e Irving a alimentarem a imaginação do público, os Cristãos Ortodoxos lembram-se deste acontecimento que, na sua óptica, foi extraordinariamente trágico. Como se lembram do estatuto de dhimmis que tinham sob a Xária (Sharia) islâmica e do pagamento da jizya para poderem praticar a sua religião, em submissão ao Islão e ao seu "multiculturalismo" teócratico, até a uma fase avançada do século XIX. Felizmente para nós portugueses, os cristãos ibéricos não tiveram o mesmo destino histórico. Numa época onde se dominava ou se era dominado, lutaram para serem livres, com mais ou menos brutalidade, rudeza ou violência. Uma última nota: ao contrário do que MST sugere, o que os islamistas-jihadistas da Al-Qaeda pretendem não são desculpas pela perda do Al-Andalus e a queda de Granada em 1492, mas sim o próprio território do Al-Andalus. Basta ler as mensagens de Osama Bin Laden ao mundo.
JPTF 2008/01/27

janeiro 26, 2008

Livros que não se encontram nas livrarias de Teerão



Como é sabido por toda a comunidade académico-científica, desde que o Presidente iraniano, Mamoud Ahmadinejad defendeu a sua tese na Universidade de Columbia, em 24 de Setembro de 2007, "não há homossexuais no Irão". Assim, os estudos queer não existem nas universidades iranianas, não por qualquer preconceito da sociedade e do regime dos ayatollahs contra os homossexuais e, muito menos, por sentimentos de homofobia contra o "outro", mas pelo motivo bem objectivo e científico de falta de objecto de estudo. Só por esta razão, e, que fique bem claro, não por motivos de censura ou de homofobia como acontece nas sociedades europeias e ocidentais, não existe nas livrarias de Teerão o livro do professor David M. Halperin, Saint=Foucault, Towards a Gay Hagiography (aliás, essa é também a razão que leva a que o GLQ: A Journal of Gay and Lesbian Studies, co-editado por Halperin, não esteja disponível na biblioteca da Universidade de Teerão). Para aqueles que contestam a tese de Ahmadinejad, brilhantemente defendida em Columbia contra um júri e um público conservador, convém lembrar que vários estudos empíricos comprovam que o último (e único) homossexual alguma vez visto no Irão foi um ocidental, o filósofo francês, Michel Foucault, nos idos tempos da revolução iraniana de 1978/79, um dos maiores gurus pós-modernos da emancipação e empoderamento dos oprimidos. Na sua faceta de jornalista de investigação, Foucault mostrou fascínio pelo Ayatollah Khomeini e pela sua forma inovadora de "espiritualidade política" introduzida na sociedade iraniana, bem documentada nas crónicas jornalísticas para os leitores do Corriere della Sera, Le Monde e Le Nouvel Observateur. O entusiasmo de Foucault pela governação empoderadora dos oprimidos do Ayatollah Khomeini, e pela sua forma pré-moderna de "disciplinar e punir", que incluía técnicas de enforcamento de homossexuais, é de facto contagiante como mostra o livro de Kevin Anderson e Janet Afary. Por tudo isto, é fácil perceber a enorme injustiça das críticas a Ahmadinejad.
JPTF 2008/01/26

Ministério da Cultura e Orientação Islâmica do Irão vai fechar a revista "Zanan" (mulheres) por criticar o regime



Já sabíamos que não há homossexuais no Irão, desde que Ahmadinejad foi à Universidade de Columbia, em Nova Iorque, em finais de 2007. Agora ficamos também a saber, pelo jornal espanhol "El Pais", que as críticas femininas ao governo dos ayatollahs não agradaram ao Ministério da Cultura e Orientação Islâmica, que resolveu encerrar a revista Zanan (mulheres). Isto porque a revista insistia em escrever sobre coisas que, obviamente, nunca existiram no Irão: maus tratos domésticos, comércio sexual, crimes de honra, tratamento discriminatório das mulheres, etc. Não se trata, pois, de censura, mas de repor a verdade e de assegurar que no Irão todos falam a uma só voz. Para além disso, devemos congratular-nos pelo zelo do Ministério da Cultura e Orientação Islâmica, que evita o triste espectáculo dado pelas democracias ocidentais, onde cada um diz e escreve o que lhe apetece. Note-se que os ayatollahs do Ministério da Cultura e Orientação Islâmica são também empenhados defensores dos Direitos Humanos: a eles se deve a criação de um dos termos mais populares actualmente em uso no Ocidente pelas organizações de defesa dos Direitos Humanos - a "islamofobia". Este foi originalmente criado durante a revolução iraniana de 1978-79, para denunciar as mulheres que recusavam o véu e estigmatizar as feministas ocidentais que as apoiavam, como a norte-americana Kate Millet, que acabou expulsa do Irão. Hoje, graças ao culto da diversidade celebrado pela ideologia oficial das sociedades ocidentais, o uso do véu, do hijab ou da burka é apenas um sinal de "vibrante diversidade" e de estilos de vida "alternativos". Mesmo sem termos um Ministério da Cultura e Orientação Islâmica entre nós, criticar o seu uso já não é muito conveniente, pois pode ser considerado uma manifestação de islamofobia. O conhecido guru da "emancipação" e do "empoderamento" dos oprimidos, Michel Foucault - um (in)confessado admirador do Ayatollah Khomeini -, tem também a sua quota de mérito neste processo emancipatório das mulheres. Khomeini está visivelmente satisfeito na sua tumba, pelo sucesso das suas ideias no Ocidente.
JPTF 2008/01/26

janeiro 25, 2008

Imagens da Turquia que espera o fim da proibição do uso do véu nas universidades, in Der Spiegel online

Egipto não quer aderir ao "espaço Schengen" com palestinianos da faixa de Gaza



A política de fronteiras abertas da UE, que considera a soberania territorial e a cidadania nacional um coisa old fashion, não tem muitos adeptos no Médio Oriente. Primeiro foi Israel que se recusou efectuar uma versão mediterrânica oriental da livre circulação de pessoas, abrindo as suas fronteiras aos palestinianos da faixa de Gaza. O insensível governo de Ariel Sharon empreendeu uma passadista política de controlo soberano territorial, usando a velha técnica da construção de barreiras para travar as demonstrações de boa vizinhança dos palestinianos jihadistas. Agora, o governo de Ehud Olmert cortou o abastecimento de energia eléctrica, como forma de pagamento da factura dos rockets enviados pelos seus colegas do governo do HAMAS. Nada de muito surpreendente na habitual política de boa vizinhança e cooperação israelo-palestiniana. No meio de tudo isto, o mais estranho é que o Egipto também aderiu às velhas teses europeias da soberania territorial, não aproveitando a oportunidade para criar um pós-moderno "espaço Schengen" com a faixa de Gaza. Acto imperdoável, pois do outro lado da fronteira estão os "irmãos muçulmanos" da Palestina. Os burocratas da UE precisam urgentemente de sair para o terreno para endoutrinar israelitas, palestinianos e egípcios nas virtudes das fronteiras abertas e da paz perpétua kantiana.
JPTF 2008/01/25

janeiro 24, 2008

A desconstrução da "objectividade" e do "rigor" da imprensa portuguesa: o caso do jornal "Público" de 24/1/2008



O jornal "Público" é um diário de referência da sociedade portuguesa. Tipicamente está associado a uma classe média, ou média alta, e a um leitor com um certo nível cultural, frequentemente com formação académica. No seu estatuto editorial apresenta-se como um "jornal diário de grande informação, orientado por critérios de rigor e criatividade editorial, sem qualquer dependência de ordem ideológica, política e económica". Curiosamente, ou talvez não, a tradicional expressão "informação objectiva" (já) não consta do estatuto editorial, mas, apenas, "rigor" e "criatividade". A verdade é que tipicamente o leitor médio, quando procura um jornal conceituado, procura também ser informado com isenção, objectividade e rigor e espera "cultivar-se". Face a estas expectativas usuais, um pequeno teste interessante é o de tentar saber se, por exemplo, a edição de hoje, 24/01/2008, do "Público", corresponde a este "imaginário" do leitor médio. Atente-se, por exemplo, em três assuntos de actualidade: i) o corte do abastecimento de energia eléctrica de Israel a Gaza e o derrube pelos palestinianos do muro de fronteira com o Egipto; a expulsão dos marroquinos que há algumas semanas atrás chegaram ilegalmente à costa do Algarve; iii) e os islamistas paquistaneses que preparavam um atentado suicida em Barcelona, tendo ontem sido confirmada pelo juiz de instrução espanhol a gravidade das acusações que levaram à sua detenção pelas forças policiais.

Como são representados estes assuntos no "Público"? O primeiro tem amplo destaque editorial e gráfico na capa com o título "Gaza. Palestinianos derrubaram fronteira com o Egipto" (fotografia em grande destaque, mais de metade da parte de baixo do jornal e chamada de atenção para a notícia na página 14, onde preenche a totalidade da página e parte significativa da página 15). O segundo, ocupa toda a metade de cima da página 6 e a notícia é, em grande parte, centrada no protesto de cerca de 30 activistas (entre outras associações não identificadas pelo autor da notícia, estariam membros da "Olho Vivo" e do Bloco de Esquerda), com uma fotografia em grande plano de um cartaz dizendo "ninguém é ilegal". Quanto ao terceiro, é objecto de uma notícia minúscula, de menos de duas dezenas de linhas, com o título "paquistaneses preparavam atentado em Barcelona", ocupando 1/4 do espaço dado à notícia do "cordão umbilical dos palestinianos com mundo" (que se encontra ao lado, na página 15). Pelo destaque do título, fotografia e dimensão do artigo, a hierarquia de importância dos assuntos implicitamente sugerida aos leitores é a seguinte: 1) palestinianos encurralados em Gaza; 2) emigrantes ilegais marroquinos repatriados; 3) paquistaneses que preparavam atentado em Barcelona. Quais as razões que levaram a esta hierarquia? A importância objectiva das notícias? (Veja-se como o jornal espanhol La Vanguardia retrata este "insignificante" acontecimento e a intenção dos islamistas causarem "dois dias de terror em cadeia".) O interesse dos leitores? O impacto dos assuntos em Portugal? A imitação da imprensa de "referência" internacional? Mas por que é que a eminência de um atentado terrorista em Espanha, uma realidade muito mais próxima e ligada a Portugal, foi relegada a um plano manifestamente secundário, face ao derrube de um muro na longínqua faixa de Gaza (o jornal britânico Times noticiava ontem que o movimento islamista radical Hamas já há meses preparava uma operação de derrube do muro... Afinal, a quem devo creditar o "rigor" informativo, ao Times ou ao "Público")? E por que razão uma manifestação, que até nem reuniu mais do que uns meros trinta activistas, tem também um destaque maior e imagem fotográfica? Mas, para além dos eventuais motivos de "criatividade editorial" subjacentes (o que faz lembrar um pouco o argumento da "liberdade poética"...), quais as razões de "rigor" na informação que a explicam? Será que estes assuntos são mesmo neutros ideologicamente? Será que nada têm a ver com causas, agendas (políticas) e visões do mundo simpáticas para quem os edita? Para ajudar a responder a estas e outras questões incómodas para os mitos jornalísticos, recomendo a leitura de um dos livros mais brilhantes feito sobre a propaganda, da autoria de Jacques Ellul, originalmente publicado em língua francesa nos anos 60, em pleno conflito ideológico da Guerra Fria. Termino com uma das reflexões que se podem encontrar neste, e que dá muito que pensar: um dos paradoxos da moderna e (sofisticada) propaganda é que são os indivíduos mais instruídos e cultos os mais susceptíveis de serem por esta afectados ....
JPTF 2008/01/24