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setembro 02, 2008
abril 15, 2008
Ayaan Hirsi Ali: sim à liberdade, não à submissão

1. Ayaan Hirsi Ali (o nome original é Ayaan Hirsi Magan), nasceu em 1969, em Mogadíscio, no seio de uma família muçulmana importante da Somália, pertencente ao clã Osman Mahamud, um sub-clã dos Darod. O seu livro Uma Mulher Rebelde (tradução portuguesa de Ingidel, Editorial Presença, 2007), é um obra autobiográfica e tremendamente humana. Relata uma experiência de vida simultaneamente dramática (pelas circunstâncias que teve de enfrentar) e fascinante (pela sua enorme coragem em superar a adversidade e refutar o papel de submissão que lhe estava destinado, como a tanta outras mulheres muçulmanas). A sua vida de infância e juventude, apesar de ter episódios felizes, foi passada em grande parte no exílio, entre a Arábia Saudita, a Etiópia e o Quénia, devido à oposição do seu pai - um membro proeminente da Frente Somali de Salvação Democrática -, ao regime ditatorial de inspiração soviética de Siad Barré. Ainda enquanto criança na Somália foi sujeita, por iniciativa da avó, à chamada circuncisão feminina, com a retirada do clítoris e dos pequenos lábios (uma prática destinada a garantir a virgindade da mulher até ao casamento). A maior parte da sua juventude decorreu no Quénia, onde frequentou a escola e tirou um curso técnico de secretariado. Aí sentiu a progressiva influência do islamismo radical dos Irmãos Muçulmanos, financiados pelo dinheiro do petróleo dos países árabes ricos do golfo, e os seus efeitos de radicalização do Islão, no Quénia e na Somália. Ela própria tornou-se muito mais rigorista no vestuário e nos hábitos religiosos diários e até tentou, ainda que sem sucesso, exercer proselitismo sobre as suas colegas na escola. Todavia, foi também no Quénia que teve, pela primeira vez, a oportunidade de contactar com culturas não muçulmanas e com a influência ocidental. Acabou, assim, por adquirir uma crescente consciência sobre a desigualdade e injustiça com que uma sociedade tradicional, baseada em valores islâmicos e pré-islâmicos, patriarcais e rigoristas, tratava as mulheres. Lentamente, Ayaan Hirsi, começou também a formar um pensamento crítico sobre a visão do mundo arcaica e hipócrita em que assentava essa ordem social. O facto de o seu pai, à maneira tradicional somali e muçulmana, lhe ter escolhido um marido dentro do clã - um homem que nunca tinha visto e residia no Canadá -, acabou, segundo refere, por ser o impulso decisivo que a levou a ganhar coragem para alterar drasticamente o rumo da sua vida.
2. Em finais de 1992, após ter viajado para a Alemanha, e enquanto aguardava os documentos para se juntar ao seu «marido»no Canadá, Ayaan Hirsi decidiu fugir para a Holanda. Isto foi feito não só com a intenção de não se casar, como de quebrar os laços com o seu passado que lhe coarctavam a sua liberdade como pessoa e ser humano. Os seus primeiros tempos decorreram no centro de acolhimento de Zeewolde, onde, na multidão de refugiados, se encontravam também outros somalis. Decorrido algum tempo acabou por ser localizada pelo seu «marido» e família, e foi submetida ao veredicto de um «Tribunal dos Anciãos», ironicamente nas instalações do próprio campo de refugiados de Zeewolde. Este tribunal improvisado, pretendia resolver a questão com base nos princípios tradicionais da Xária (Sharia) islâmica, pressionando-a a ir ter com o seu «marido» e a preservar a honra da família, que dependia do cumprimento da promessa de oferta da filha em casamento. Ao recusar-se a acatar o veredicto do «Tribunal dos Anciãos», Ayaan Hirsi sabia que corria o risco de ser rejeitada pela sua própria família, que não iria aceitar esta decisão, o que de facto veio a acontecer, como mostra uma troca emotiva de cartas com o seu pai, reproduzida no livro (entre as páginas 160-161). Nos anos subsequentes, teve vários empregos, desde empregada numa fábrica a tradutora de refugiados e emigrantes, acabando por conseguir frequentar o curso de Ciência Política na prestigiada Universidade de Leida. Entretanto, outra tragédia pessoal se abateu sobre a sua vida. A sua irmã Haweya, que também tinha fugido para a Holanda e vivia consigo, nunca se adaptou à sociedade holandesa. Já com uma história pessoal anterior complexa, acabou por ser afectada por uma doença psiquiátrica grave que a levou a regressar a casa da mãe, em Nairobi, no Quénia, sucumbindo à doença em inícios de 1998.
3. O principal momento de viragem de Ayaan Hirsi para um activismo político ocorreu quando, em 2001, o Instituto Wiardi Beckman ligado ao Partido Trabalhista, a contratou como investigadora (entretanto, já tinha obtido a nacionalidade holandesa e concluído o seu curso em Leida). Uma semana depois de ter iniciado o trabalho nessa instituição - a sua actividade consistia na participação em grupos de trabalho e em efectuar pesquisas sobre os problemas de integração das mulheres estrangeiras na sociedade holandesa -, ocorreram os atentados terroristas de 11/S. A conjugação destas duas circunstâncias teve um enorme impacto na vida de Ayaan Hirsi e acabou também por projectá-la como figura pública. A questão do terrorismo islâmico e das suas motivações passou a absorver grande parte do seu pensamento e energias. Poucos meses depois do 11/S, num debate efectuado sob o título O Islão e o Ocidente, quem precisa de um Voltaire? (e quando o público se inclinava sobretudo para concordar com aqueles que criticavam este ou aquele aspecto do mundo ocidental), fez uma intervenção contracorrente afirmando: «Pensem na quantidade de Voltaires que o Ocidente já tem. Não nos negueis o direito de termos, também nós, um Voltaire. Olhem para as nossas mulheres e olhem para os nossos países. Vejam como somos tantos a fugir e a procurar refúgio aqui. E vejam essas pessoas que, na sua loucura, fazem despenhar aviões contra as vossas cidades. Permitam-nos que desejemos a chegada de um Voltaire, porque vivemos verdadeiramente na idade das trevas» (p. 276). Após relatar esta sua primeira intervenção pública, Ayaan Hirsi comenta também no seu livro a ideologia multiculturalista da sociedade holandesa, e a sua visão idílica sobre a integração (que, ironicamente, funcionava até contra a própria vontade de integração de muitos muçulmanos): «Na altura, especialmente nos círculos do Partido Trabalhista, toda a gente tinha uma opinião muito positiva do Islão. Se os muçulmanos exigiam mesquitas, cemitérios separados, matadouros rituais, construíam-lhos. Forneciam-lhes locais para os seus centros culturais, onde o fundamentalismo se poderia desenvolver à vontade [...] Pareciam esquecer-se de quanto tempo tinha sido necessário à Europa para se libertar do obscurantismo e da intolerância, e até que ponto a luta tinha sido encarniçada» (p. 277). Pela sua própria experiência de vida, sabia bem como o idealismo ingénuo das elites holandesas, sobre as virtudes do multiculturalismo, abria a porta a interpretações retrógradas do Islão e à difusão da ideologia dos islamistas: «O governo holandês precisava de parar urgentemente com a fundação das escolas corânicas, pensava eu. As escolas muçulmanas rejeitam os valores dos direitos humanos universais. Numa escola muçulmana as pessoas não são todas iguais, e as liberdades de expressão e de consciência são banidas. Estas escolas não deixam desenvolver a criatividade - a arte, o teatro, a música não são ensinados - e impedem as faculdades críticas que poderiam levar as crianças a questionar as suas crenças» (p. 281).
4. Com este tipo de posições críticas do Islão rigorista e da ideologia islamista, Ayaan Hirsi granjeou rapidamente inimigos. Não só passou a receber ameaças, presumivelmente de islamistas radicais-jihadistas (o que a levou a estar permanentemente sob segurança), como, dentro do seu no seu próprio partido, foi olhada com desconfiança por colocar em causa a ideologia multiculturalista oficial. Isto levou-a a mudar para o Partido Liberal tendo sido eleita deputada ao parlamento holandês nas eleições de 2003. Em 2004, participou num filme de Theo van Gogh (sobrinho-neto do pintor Van Gogh), intitulado Submissão, que pretendia chamar à atenção do público holandês para a frequente situação de opressão em que viviam as mulheres na cultura islâmica. Nessa altura, a Holanda já estava abalada pelo assassinato de Pim Fortuyn às mãos de um militante de extrema esquerda pró-direitos dos animais, que ocorrera dois anos antes. Desta vez, a tragédia abateu-se sobre Theo van Gogh que, em finais de 2004, foi barbaramente assassinado nas ruas de Amesterdão por um muçulmano de nacionalidade holandesa e origem marroquina. (Ironicamente, na altura em que foi assassinado, trabalhava num filme sobre o assassínio de Pim Fortuyn). Este assassinato aumentou as atribulações de Ayaan Hirsi, com esta a ser directamente ameaçada de morte na carta deixada pelo assassino sobre o corpo de Theo van Gogh. Já em 2006, o programa de televisão Zembla com o título Santa Ayaan, divulgou, sensacionalistamente, que esta mentira para obter o asilo e nacionalidade - algo que, segundo Ayaan Hirsi, já era do conhecimento público há vários anos. A Ministra da Integração, Rita Verdonk, apanhada no meio de uma forte política entre o governo e a oposição, decidiu retirar-lhe a nacionalidade por imperativos legais (pouco tempo depois, o governo de Peter Balkenende acabou por voltar atrás na decisão). Esta situação delicada levou-a a demitir-se do parlamento e a viajar até aos EUA, a convite do American Enterprise Institute de Washington, um think tank conservador. Segundo refere no livro, a decisão de aceitar esse convite foi todavia anterior ao problema da nacionalidade (p. 346). Entretanto, terá regressado novamente à Holanda, sob protecção e anonimato, numa situação que faz lembrar a de Salman Rushdie. Depois de se ler este livro, percebe-se quanto se deve à extraordinário acção de Ayaan Hirsi e à sua luta corajosa pelos direitos das mulheres e pela preservação da tradição de liberdade, da Holanda e do Ocidente.
OBS: O texto corresponde, com algumas modificações, à recensão publicada na revista Crítica
JPTF 2008/04/15
abril 09, 2008
Uma Ilusão de Harmonia: Ciência e Religião no lsão de Taner Edis

Em Uma Ilusão de Harmonia: Ciência e Religião no lslão (Pometheus Books, 2007), Taner Edis - um físico de origem turca da Universidade Truman nos EUA -, contesta a convicção, bastante generalizada entre os muçulmanos, de que o Islão seria uma religião intrinsecamente favorável à ciência e à investigação científica. Como este refere ao longo do livro, esta convicção está na origem de argumentos tradicionalmente usados nas comparações mantidas com outras religiões, nomeadamente com a tradição judaico-cristã do Ocidente. No Islão sunita as tradições Suna/ahadith atribuem ao Profeta Maomé o dito ‘procurem o conhecimento até na China‘ se necessário. Isto mostraria as vantagens do Islão e a sua particular harmonia entre ciência e religião. O Islão não necessitaria de seguir a via da secularização (ver a fatwa do Xeique Yusuf al-Qaradawi sobre o secularismo no Islão) para progredir na ciência e no conhecimento científico. Esse foi um caminho que o Ocidente teve de efectuar devido às imperfeições do Cristianismo. Baseados nesta convicção, normalmente muçulmanos têm tentado tirar vantagem dos modernos conhecimentos científicos e tecnológicos islamizando-os. Com esta atitude face à modernidade, esperam poder beneficiar deles sem terem necessidade de desenvolver uma nova teologia e ter de adaptar as suas convicções religiosas às necessidades do mundo moderno. Todavia, de acordo com Taner Edis, esta forma de pensar alimenta uma ilusão de harmonia, que acaba por contribuir para o atraso generalizado da ciência e da investigação científica no mundo muçulmano.
JPTF 9/04/2008
março 24, 2008
"Hoje somos (quase) todos vítimas!" de David G. Green, Londres, Civitas, 2006

Os valores da democracia liberal estão a ser substituídos por uma cultura de "vitimocracia" no Reino Unido (sobre a expansão de similar culto na América do Norte, ver o artigo crítico de Edward W. Younkins, Multiculturalism: the Rejection of Truth and Reason). Para David Green da Civitas - The Institute for the Sudy of Civil Society, os britânicos estão a transformar-se numa "nação de vítimas", o que não deixa de ter a sua ironia, se pensarmos que ainda há menos de um século atrás eram o maior poder imperial e colonial mundial. Hoje, a soma de todos os grupos oficialmente protegidos, por serem considerados vítimas, atinge 73% da população. Alguns grupos reclamam ainda serem vítimas de múltiplas discriminações, pelo que, se as suas reivindicações fossem levadas a sério, cerca de 109% da população teria de ter o estatuto de vítima.... Para além da questão do reconhecimento da identidade, há vantagens políticas e materiais que tornam o status de "oprimido" particularmente apetecido: tratamento preferencial no mercado de trabalho, visibilidade na esfera pública e interferência no processo legislativo, compensações financeiras, e até maior facilidade de uso da polícia e do sistema judicial para silenciar as críticas mais inconvenientes. No país de John Locke e Adam Smith, a nova vitimocracia grupal está a substituir as velhas ideias liberais da autonomia e responsabilidade moral do indivíduo, que era visto como independente do grupo. Agora, o indivíduo já não é visto como um detentor de soberania moral, mas como alguém possuidor de uma característica quase "genética" (de vítima), que acompanha inexoravelmente os membros do grupo a que pertence. O sistema legal e judicial começa também a reflectir os valores da vitimocracia, afastando-se da antiga ideia da igualdade perante a lei de todos os cidadãos (por exemplo, um crime contra um membro de um grupo identificado como vítima é mais grave do que o mesmo crime contra um cidadão comum...). Resta-nos ficar à espera que estas ideias "evoluídas" sejam também copiadas em Portugal, onde a construção de uma vitimocracia pós-moderna está ainda muito atrasada.
JPTF 2008/03/24
março 20, 2008
"Quando os Estilos de Vida Colidem", livro de Paul M. Sniderman e Louk Hagendoorn, Imprensa da Universidade de Princeton, 2007

Paul M. Sniderman e Louk Hagendoorn efectuaram um importante estudo de caso sobre a experiência multicultural mais ambiciosa da Europa: a da Holanda. Pelas razões que veremos já em seguida, o livro poderia também ter como sub-título: "o fracasso da utopia multicultural holandesa". Importa começar por notar que as conclusões dos autores são baseadas numa investigação empírica iniciada em 1998 na sociedade holandesa, não tendo qualquer ligação directa com os acontecimentos de 11 de Setembro. No cerne do livro está a maneira como a ideologia e políticas multiculturais, que marcaram a sociedade holandesa a partir dos anos 60 - e se basearam em promessas de ‘progressivismo‘ social, que eliminaria o preconceito e promoveria o reconhecimento igualitário das diferentes culturas -, é vista pelo indivíduo comum. Para além disso, são analisados os resultados das políticas multiculturais, que em muitos aspectos, acabaram por ser o oposto do pretendido. Por exemplo, no caso dos muçulmanos que emigraram para a Holanda, os resultados das políticas multiculturais foram, frequentemente e de forma paradoxal, o de preservar e promover algumas das práticas mais iliberais e conservadoras existentes nas áreas mais sub-desenvolvidas dos países de origem dos emigrantes. Ainda que involuntariamente, as políticas multiculturais legitimaram comportamentos arcaicos e práticas tradicionais de discriminação das mulheres e crianças, bem como a separação dos sexos na esfera pública. Em vez de uma integração na sociedade de acolhimento acabou por ser estimulado um crescente apartheid social, ao subsidiarem, por exemplo, a educação em escolas religiosas separadas do resto da sociedade. O estudo mostra também como multiculturalismo na Holanda nunca foi o resultado de qualquer pressão da generalidade da sociedade para a adopção dessas políticas. Pelo contrário, teve sempre, e tem hoje mais do que nunca, um grau de descontentes (muito) significativo. O seu impulso resultou de uma pretensão das elites educarem e "iluminarem" as massas, algo extremamente questionável numa sociedade democrática, baseada no princípio da soberania popular.
JPTF 2008/03/20
fevereiro 24, 2008
dezembro 12, 2007
Livro: "Os Últimos Dias da Europa. Epitáfio para um Velho Continente", Rio de Janeiro, Odisseia Editorial, 2007


Nas vésperas da assinatura do Tratado de Lisboa, um dúvida ocorre: quem está a antecipar melhor o futuro da Europa no século XXI? O europtimisno de Durão Barroso e José Sócrates, que prometem uma Europa mais unida e fortalecida e o seu regresso à cena mundial com o novo Tratado, ou o contrastivo europessimismo do historiador Walter Laqueur, que prognostica dias sombrios para os europeus e a sua passagem nas próximas décadas para o "museu da história"? Por contraponto com o discurso oficial, e para uma reflexão crítica sobre o que poderá ser a Europa num futuro não muito distante, vale a pena ler os Últimos Dias da Europa. Epitáfio para um Velho Continente, recentemente publicado em língua portuguesa, pela Odisseia Editorial do Rio de Janeiro.
JPTF 2007/12/11
dezembro 08, 2007
Prognósticos sombrios para a Europa: Livro "Declínio e Queda" de Bruce Thornton, Nova Iorque, Encounter Books, 2007

Once a colossus dominating the globe, Europe today is a doddering convalescent. Sluggish economic growth, high unemployment, an addiction to expensive social welfare entitlements, a dwindling birth-rate among native Europeans, and most important, an increasing Islamic immigrant population chronically underemployed yet demographically prolific – all point to a future in which Europe will be transformed beyond recognition, a shrinking museum culture riddled with ever-expanding Islamist enclaves.
Decline and Fall tells the story of this decline by focusing on the larger cultural dysfunctions behind the statistics. The abandonment of the Christian tradition that created the West’s most cherished ideals–a radical secularism evident in Europe’s indifference to God and church–created a vacuum of belief into which many pseudo-religions have poured. Scientism, fascism, communism, environmentalism, multiculturalism, sheer hedonism – all have attempted and failed, sometimes bloodily, to provide Europeans with an alternative to Christianity that can show them what is worth living and dying for.
Meanwhile a resurgent Islam, feeding off the economic and cultural marginalization of European Muslims, knows all too well not just what is worth dying for, but what is worth killing for. Crippled by fashionable self-loathing and multicultural fantasies of multicultural inclusiveness, Europeans in the face of this threat have met this threat with capitulation instead of strength, appeasement and apologies instead of the demand that immigrants assimilate.
As Decline and Fall shows, Europe’s solution to these ills–a larger and more powerful European Union – simply exacerbates the problems, for the EU cannot address the absence of a unifying belief that can spur Europe even to defend itself, let alone to recover its lost grandeur. As these problems worsen, Europe will face an unappetizing choice between two somber destinies: a violent nationalistic or nativist reaction, or, more likely, a long descent into cultural senescence and slow-motion suicide.
http://www.encounterbooks.com/books/decline/
JPTF 8/12/2007
outubro 27, 2007
Guy Hermet : "Uma liberdade falseada" in Le Monde, 25 de Outubro de 2007

Ancien directeur du Centre d'études et de recherches internationales (CERI) de Sciences Po, vous publiez L'Hiver de la démocratie ou le nouveau régime (Armand Colin, 230 p., 22,50 €). Un tableau sombre de l'état de nos "vieilles démocraties" où sévissent, selon vous, des formes insidieuses de contrôle des esprits...
Nous vivons dans une situation paradoxale. A priori, notre liberté est totale. Mais c'est une liberté faussée, soumise à une censure qui n'est pas extérieure, mais que nous avons tendance à intérioriser. Il y a des mots que l'on n'ose plus utiliser : voyez l'expression "souveraineté du peuple". Pourtant liée depuis toujours à l'idée de démocratie, elle fut d'abord placée en exergue du projet de Constitution européenne, avant d'être exclue de sa version finale. Il y a d'autres mots, à l'inverse, dont on use à tort et à travers au point de ne plus savoir de quoi on parle, comme "citoyen" ou "républicain". Notre liberté de parole est de plus en plus encadrée par une sorte de préservatif lexical qui garantit la "bonne" pensée. Nous ne nous en rendons pas forcément compte, d'ailleurs. Cela me fait penser à la "novlangue" évoquée par George Orwell dans 1984.
Orwell imaginait cette "novlangue" comme un instrument de propagande forgé par des Etats totalitaires. Le rapprochement n'est-il pas exagéré ?
La différence principale entre les démocraties et les totalitarismes est que cet endoctrinement par la langue ne vient plus d'en haut. Encore que... Prenez la France : depuis la loi Gayssot (1990), qui sanctionne la négation des crimes contre l'humanité commis durant la seconde guerre mondiale, on a adopté d'autres lois qui prétendent dire ce qu'est la vérité historique, sur l'esclavage ou le génocide arménien, par exemple. Je ne dis pas que ce qui est dit par la loi est historiquement faux. Je constate simplement qu'on assiste au retour de la notion de "vérité officielle". Mais admettons : il est vrai que, dans nos démocraties, l'Etat n'est plus le seul lieu où se décide ce que l'on doit penser ou non. Les instances qui dispensent le "politiquement correct" sont diverses : les hommes politiques, les hauts fonctionnaires, les syndicats, les Eglises, les intellectuels, les journalistes... Ce qui m'inquiète, c'est qu'il est très difficile, en raison même de cet éclatement, de lutter contre la prolifération du prêt-à-penser.
Vous parlez à ce propos de "nouvel ordre moral". En quoi est-ce dangereux pour la démocratie ?
Il ne faut pas oublier que logos, en grec, signifie à la fois la parole et la raison. Ainsi, quand on crée de la confusion dans les mots, on "désinstruit" les gens, on sape l'esprit critique. Par exemple, je suis frappé - moi qui suis pourtant très proeuropéen - par le vocabulaire que distillent les instances communautaires : on parle de "gouvernance" plutôt que de "gouvernement", ou encore d'"ajustements sociaux" pour euphémiser ce qui conduit en fait au démantèlement de l'Etat-providence. Bref, un lexique anesthésiant qui tend à dépolitiser les problèmes, à masquer le caractère conflictuel de la réalité. La conséquence, c'est un appauvrissement de la pensée. Or la vraie démocratie réside dans la capacité qu'a le peuple de faire des choix. Il doit pour cela y voir clair. L'important est de retrouver cette capacité de résistance qu'offrent les mots.
http://www.lemonde.fr/web/article/0,1-0@2-3260,36-970917,0.html
JPTF 2007/10/27
abril 10, 2007
Livro: “A Guerra das Ideias: Jihadismo contra a Democracia” de Walid Phares, Nova Iorque, Palgrave Macmillan, 2007

Nos Estados Unidos existe uma grande tradição de acolhimento de pessoas que, pelas mais diversas razões, acabam por se fixar no país e contribuir para a sua produção económica, científica, artística e intelectual. Se isso é bem conhecido pelo contributo da emigração europeia, já no caso de populações oriundas de outras partes do mundo o fenómeno é relativamente mal conhecido, sobretudo quando a sua proveniência é o Médio Oriente. Para as elites intelectuais europeias, a principal excepção a esse desconhecimento é o professor de Literatura da Universidade de Columbia, Edward Said, recentemente falecido, que se tornou um autor canónico dos Estudos Pós-Coloniais constituídos sob o modelo pós-moderno das genealogias de Nietzsche/Foucault e das desconstruções de Paul de Man e Jacques Derrida. Nesta visão ideológica, a identidade do “outro” (neste caso dos árabes e muçulmanos do Médio Oriente), é vítima do “imperialismo cultural” do Ocidente, sendo representada de forma distorcida na Literatura, nos textos dos orientalistas, no discurso político e nas imagens dos media. Com este o ideário en vogue na academia, o autor do livro em análise poderia facilmente adoptar similar abordagem, pois, tal como Edward Said, é árabe (cristão), provém do Médio Oriente (Líbano) e emigrou relativamente novo para o Ocidente (EUA), onde já vive há bastante tempo, tendo adquirido aí a notoriedade internacional que o Oriente nunca lhe permitiria. Mas as semelhanças entre os dois terminam aqui. Walid Phares é actualmente é investigador associado da Fundação para a Defesa das Democracias nos EUA, sendo também professor de Estudos do Médio Oriente e de conflitos étnico-religiosos. Ressalvadas as devidas proporções, gera provavelmente na Middle East Studies Association da América do Norte um desconforto parecido ao que o escritor britânico de ascendência indiana, e Prémio Nobel da Literatura, V. S. Naipaul – que preenchendo os requisitos de vítima das “distorções de identidade” não se revê nelas – provoca em vários teóricos dos Estudos Pós-Coloniais.
Em The War of Ideas. Jihadism Against Democracy/A Guerra das Ideias: Jihadismo contra a Democracia Walid Phares retoma algumas das ideias avançadas na anterior publicação Future Jihad: Terrorist Strategies Against the West/A Jihad Futura: Estratégias Terroristas contra o Ocidente (2006), assumiu em mãos a tarefa de alertar as democracias e o mundo ocidental face aos perigos do “jihadismo”. Este é o extremo violento da ideologia islamista corporizado em diversos grupos radicais (salafistas, khomeinistas, etc.), e que, entre outros meios, recorre também ao terror como arma política, tendo aliados “objectivos” à direita e à esquerda, sobretudo nos extremos do espectro político ocidental. A abordagem a este difícil e complexo tema que marca a actual política internacional foi estruturada em treze capítulos: 1) Os debates históricos; 2) O eixo anti-democrático; 3) Visões irreconciliáveis; 4) A guerra jihadista contra os princípios internacionais; 5) O assalto ao pluralismo; 6) Os pilares da democracia sob ataque; 7) Apartheid do género; 8) O jihadismo espera o desenlace da Guerra-Fria: a primeira guerra de ideias, 1945-1990; 9) Batalhas sobre as mentes: a segunda guerra de ideias, 1990-2001; 10) O choque dos futuros: a terceira guerra de ideias, 2001-2006; 11) A guerra ao ensino; 12) Inflamando os corações e estupidificando as mentes; 13) A guerra aos mensageiros.
Como ponto de partida da análise, o autor explica o que, na sua óptica, deve historicamente ser entendido por jihad – bem como a actual ideologia política que foi construída a partir do conceito clássico da mesma –, “desconstruindo” aquilo a que este chama, de forma irónica (e numa alusão cáustica aos trabalhos de John Esposito, Tariq Ramadan e outros), as teses da “jihad como uma espécie de yoga”. Atente-se no teor deste excerto (p.35): “Em síntese, qual foi a realidade da jihad, como conceito, através de séculos de prática e a ideologia específica que a jihad defende? [...] Historicamente é claro que foi um instrumento estadual para a mobilização de guerra, sob os califados árabe e otomano e várias dinastias muçulmanas tais como os omíadas, os abássidas, os seljúcidas, os mogóis, os mamelucos e muitos outros. As referências oficiais à jihad e o número de fatwas (éditos religiosos) autorizando-a são demasiado volumosos para a ignorar. Através dos séculos da primeiro Fatah (conquista) islâmica, da Síria, Iraque, Norte de África, da Pérsia até à Espanha, milhares de discursos e declarações de jihad, nestas vastas terras fora da Península Arábica. Comparando a jihad com a conhecida “agressão ao outro” no período medieval – as cruzadas –, feita pela Europa/Ocidente cristão, este afirma ainda (p. 35-36): A “forma estadual de jihad durou cerca de treze séculos em três continentes: Ásia, África e Europa. A última jihad sancionada por um califa ocorreu durante a I Guerra Mundial, através do sultão otomano contra os Aliados, pouco antes do colapso dos exércitos imperiais turcos. Em 1924, a jihad islâmica estadual, ou a guerra global dos poderes muçulmanos baseada na decisão do califa terminou. Em comparação, as ‘guerras cristãs‘ foram interrompidas por desenvolvimentos religiosos como resultado da Reforma, dos acordos do Vaticano e da emergência do Estado secular no Ocidente. As ‘guerras judaicas‘ terminaram fisicamente em 70 a. C. com a queda de Jerusalém. Mas dos fragmentos do sultanato a jihad foi agarrada por um movimento que construiu uma apropriada ideologia e que a pôs em prática à medida que se desenrolava o século XX”.
Na sua abordagem a esta ideologia, Walid Phares assumiu também uma certa defesa de Samuel Huntington e da sua conhecida tese sobre o “choque de civilizações”, face ao “oceano de críticos que emergiu de todos os quadrantes das Ciências Sociais, bem como de jornalistas e activistas” (p. 237), por ter sido um dos primeiros académicos a alertar as democracias ocidentais para os perigos destes desenvolvimentos no mundo islâmico. Todavia, importa notar que o trabalho de Samuel Huntington, sejam quais forem as suas intenções ou méritos, acabou também por contribuir para criar um quadro mental distorcido. O que está em causa não é um conflito civilizacional, mas, como sugere o próprio Walid Phares, uma confrontação ideológica de um tipo mais complexo e difícil de apreender que o da Guerra Fria. Por isso, tomar a parte (a ideologia islamista-jihadista) pelo todo (a cultura ou civilização onde esta tem origem) é uma distorção na apreensão da realidade. Pior do que isso, é ainda uma distorção particularmente conveniente para as estratégias dos movimentos islamistas que procuram criar e apresentar, aos olhos ocidentais, um Islão essencialista e homogéneo funcionando como um bloco, algo que não existe. Importa ainda referir que para além de ser estrategicamente errada, é uma categorização extremamente injusta para com as diversas correntes de pensamento e os movimentos de muçulmanos liberais que se opõem à ideologia islamista, muitas vezes com risco da sua própria vida.
Mas o livro não se restringe à explicitação da ideologia jihadista, nem às controvérsias em torno do trabalho de Samuel Huntington. Um dos aspectos mais interessantes (e polémicos) relaciona-se com uma questão já abordada na sua publicação anterior, onde este faz um ataque demolidor aos Estudos sobre o Médio Oriente, tal como estão actualmente constituídos na maioria das universidades dos EUA. Na sua óptica, estes não estão a funcionar de acordo com princípios de rigor académico e científico que se espera das universidades e, muito menos, a prestar qualquer serviço útil à nação norte-americana. A explicação reside no que este denuncia como sendo os “lobbies wahabistas” (por referência à ideologia religioso-política fundamentalista de Muhammad Ibn Abd al-Wahhab, um árabe “saudita” do século XVIII), patrocinados pela Arábia Saudita e outras monarquias do golfo (por exemplo, o Qatar). Estes terão conseguido desenvolver, nas últimas décadas, com o suporte dos imensos meios financeiros obtidos após o choque petrolífero de 1973, uma estratégia hábil e bem sucedida de difusão da sua ideologia na América do Norte. Esta consistiu em instituir e/ou financiar generosamente os departamentos de Estudos Árabes, do Islão e do Médio Oriente, na esmagadora maioria das universidades norte-americanas, influenciando, directa ou indirectamente, a produção intelectual e as formas de pensar este assunto, tendo já produzido três gerações de académicos, professores e investigadores, com influência nos media, nas agências governamentais e nas artes (p. 194). Se a as críticas de Walid Phares têm algum fundamento, como parecem ter, a ironia tudo isto é que a tese de Edward Said sobre o Orientalismo até se pode aplicar bem aqui: de facto, surgiu nas últimas décadas um “Oriente criado pelo Ocidente” (leia-se pelos académicos dos muitos departamentos de Estudos do Médio Oriente) e que está urgentemente a precisar de ser desconstruído. Ironias à parte, a ilação mais séria e preocupante que resulta desta leitura é que se já tínhamos muitas razões para nos preocuparmos com o actual modelo de crescimento económico, baseado no petróleo, pelos enormes custos ambientais que está a acarretar, agora temos ainda uma preocupação adicional: é em grande parte a economia do petróleo que suporta financeiramente o islamismo-jihadista e o ataque às democracias.
JPTF 2007/04/10
abril 03, 2007
Livro: “Conhecimento Perigoso. O Orientalismo e os seus Descontentes” de Robert Irwin, The Overlook Press, Woodstock & Nova Iorque, 2006


“É um escândalo e um mau comentário sobre a qualidade da vida intelectual britânica das recentes décadas que o argumento de Said sobre o Orientalismo ainda possa ser levado a sério [...] As qualidades do Orientalismo [de Said] são as de uma boa novela. É excitante está embalado num lote de vilões sinistros, bem como num numeroso bando de bonzinhos e a imagem que apresenta do mundo é ricamente imaginada, mas essencialmente ficcional” (p. 309).
Robert Irwin é um historiador britânico e professor na School of Oriental and African Studies (SOAS) de Londres, editor para o Médio Oriente do Times Literary Supplement. Com esta publicação intitulada Dangerous Knowledge. Orientalism and its Discontents/Conhecimento Perigoso. O Orientalismo e os seus Descontentes (que foi posteriormente editada sob o título For Lust of Knowing. The Orientalists and their Enemies/Pelo Desejo de Saber. Os Orientalistas e os Seus Inimigos) o autor dá-nos uma visão abrangente do Orientalismo, como campo de estudos, com um retrato dos percursos e obras dos principais nomes que marcaram a disciplina. Robert Irwin assume também que a motivação para esta publicação se deve, em boa medida, ao livro Orientalismo de Edward Said, publicado originalmente em 1978. Vamos por partes na análise do que nos oferece o conteúdo do livro. Os oito primeiros capítulos de Robet Irwin dão uma panorâmica do Orientalismo e retratam as suas figuras mais importantes - a esmagadora maioria das quais desconhecida do público não especializado (o mais conhecido é provavelmente Ernest Renan, que só secundariamente pode ser considerado orientalista) - , como Guillaume de Postel, um francês exótico do século XVI, que foi o fundador da disciplina; Ignatz Goldziher, um húngaro de ascendência judaica e cultura germânica, que foi o seu principal expoente na segunda metada do século XIX e inícios do século XX ; e Arminius Vambéry, também de origem húngara, mais um viajante intrépido do que um orientalista, que com os seus relatos das lendas balcânicas terá inspirado o escritor britâncico Bram Stocker, no romance Drácula. Nesta parte do livro, Robert Irwin aborda o tema de forma atraente e elegante, fazendo uma descrição das origens e evolução do Orientalismo numa linguagem acessível, entremeada com um certo humor e pormenores curiosos (por exemplo, Cristóvão Colombo levava consigo um intérprete judeu, falante de língua árabe, para lidar com os povos das Américas).
Nos últimos capítulos, especialmente no capítulo 9 (Uma Investigação sobre a Natureza de uma Certa Polémica do Século XX), o tom da escrita altera-se um pouco e dá lugar a uma crítica corrosiva, naquilo que ironicamente poderíamos chamar a “desconstrução do Orientalismo” de Edward Said. Para os menos familiarizados com o percurso de Said importa recordar que este nasceu em Jerusalém, numa família cristã árabe (protestante) da burguesia do Médio Oriente, tendo estudado numa escola de elite anglófila do Cairo e vivido a maior parte da sua vida nos Estados Unidos, onde foi professor de Literatura, na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Foi sobretudo um conhecido e emblemático activista da causa palestiniana (auto apresentando-se como palestiniano, naquilo que poderíamos chamar a “construção social da sua identidade”) apesar de ser provavelmente de ascendência libanesa. Sobre este, Robert Irwin começa por fazer notar (à semelhança do já tinham feito outros críticos, como, por exemplo, Bernard Lewis, Maxime Rodinson ou Albert Hourani) que o livro Orientalismo contem vários erros e imprecisões factuais (por exemplo, a sugestão que a Grã-Bretanha e a França dominavam o Mediterrâneo oriental no século XVII, ou a referência que este faz à conquista, pelos exércitos muçulmanos, da Turquia antes do Norte de África). Tal como já tinha anteriormente feito Lewis, Irwin chama à atenção dos leitores para o facto de os orientalistas alemães (com um peso enorme na disciplina de nomes como Hammer-Porstgall, Fleischer, Welhausen, Goldziher, Nöloeke e Becker) serem praticamente ignorados Orientalismo de Said, que pretendeu fazer uma análise crítica - ou melhor, uma genealogia do tipo Nietzsche/Foucault- desse campo de estudos.
Depois de se ler a argumentação de Robert Irwin, a sensação que fica é que Edward Said recorreu a um estratagema hábil mas que intelectualmente não deixa de merecer reparos. Said sugere aos seus leitores que o Orientalismo britânico e francês foram os mais importantes. A conveniência desta ideia assentou provavelmente em duas razões: primeiro, eram as línguas europeias que este conhecia melhor (ao contrário do alemão e também do russo, tendo também a Rússia uma grande tradição de Orientalismo, que este ignorou totalmente, seja por desconhecimento ou por outras razões); segundo, permitiam-lhe criar um elo de ligação (aparentemente convincente, sobretudo para o público não especializado) entre orientalismo e imperialismo, pois Grã-Bretanha e França foram os dois maiores poderes coloniais ocidentais. Todavia, se considerasse o caso alemão, como a Alemanha praticamente não teve império colonial, mas deu a mais importante contribuição isolada para o campo do Orientalismo, a genealogia de Edward Said ficava em dificuldades logo à partida (nada que não se resolva com uma velha técnica de escrita, que consiste em omitir a factualidade que é incómoda ou contradiz o que se pretende mostrar ...). Para além disso, apresentou o Orientalismo como um discurso unificado - o que também é uma distorção mais ou menos grosseira dada a diversidade e visões, frequentemente contraditórias, existentes na disciplina -, sugerindo que os orientalistas eram “agentes do imperialismo” e uma espécie de guarda avançada do “imperialismo cultural” do Ocidente. A realidade mostrada por Irwin é bastante diferente. Não invulgarmente simpatizavam genuinamente com a cultura e religião que estudavam e alguns até apoiaram causas políticas dos povos árabes e islâmicos, não sendo agentes do poder colonial, mas, na maioria dos casos, indivíduos motivados por uma grande curiosidade e uma vontade genuína de saber (curiosamente, o único exemplo que Said admite com este perfil foi o de Louis Massignon, que não foi propriamente um orientalista outsider, como este sugere, e esteve mesmo ligado ao poder político colonial francês).
Crítica contundente, perpassada de sarcástica ironia, mereceu ainda o cânone pós-moderno do Orientalismo - um dos livros de culto dos actuais Estudos Pós-Coloniais -, e a sua obsessão pela linguagem e descontruções de textos: (p. 286): “Tal como vimos, foi o discurso e as estratégias textuais que conduziram o projecto imperial, criaram plantações de borracha, fizeram o canal do Suez e estabeleceram guarnições de legionários no Sara. Como o Orientalismo é pela sua natureza uma doença ocidental, o mesmo deve ser verdade para o imperialismo. Os persas, que sob Ciro, Dário e Xerxes construíram um poderoso império e tentaram anexar a Grécia e esse império, não foram denunciados por Said por imperialismo. Pelo contrário, foram apresentados como trágicas e inocentes vítimas de distorções de dramaturgos. Mais tarde, os Omíadas, os Abássidas, os Fatimidas e os Otomanos presidiram a grandes impérios, mas as suas dinastias escaparam à censura. De facto, devem ter sido considerados vítimas da distorção ocidental.” Por tudo o que foi referido - e para além de algumas imprecisões, sobretudo no capítulo 10 ( “inimigos do Orientalismo”), notadas por Amir Taheri na recensão feita no jornal árabe Asharq Alawsat de Londres -, estamos perante um contributo relevante para um conhecimento mais equilibrado da tradição de estudos do Orientalismo; e estamos também perante uma defesa apaixonada contra os que a tentaram denegrir e banir, por razões que vão para além de considerações estritamente académicas e científicas e se encontram mais no terreno da luta política e ideológica. Adivinha-se uma recepção negativa e a irritação nos Estudos Pós-Coloniais a este “regresso dos fósseis”.
NOTA: Esta recensão foi publicada na Crítica: Revista de Filosofia e Ensino http://www.criticanarede.com/
JPTF 2007/04/03
março 02, 2007
Livro “Twice a Stranger” de Bruce Clark, Londres, Granta Books, 2006
O livro de Bruce Clark, editor de segurança internacional da revista britânica Economist, retrata um dos episódios mais dramáticos e mal conhecidos das primeiras décadas do século XX. Na sua origem está o fim do Império Otomano e a vitória dos nacionalistas de Mustafa Kemal (Atatürk), na “guerra da independência” da Turquia, contra a ocupação das potências aliadas, e a megali idea da Grécia. Ao nível humano, a nefasta consequência foi que entre 1,2 milhões a 1,4 milhões de “gregos” tiveram de abandonar as suas casas e propriedades na Anatólia (a actual Turquia, em cidades como Constantinopla/Istambul, Esmirna e Trebizonda), deslocando-se para a Grécia, que teve de gerir um incremento populacional de quase 25%. Em contrapartida, cerca de “400.000 turcos” tiveram também de deixar as suas casas e propriedades no território da actual Grécia (sobretudo na Macedónia, mas também em locais como a ilha de Creta) e deslocarem-se para a Turquia (3% da sua população turca na época). Por mais estranho que aos olhos de hoje possa parecer, este acordo para a troca compulsiva de populações (de facto uma deportação recíproca), contou com os bons ofícios do norueguês Fridtjof Nansen, Prémio Nobel da Paz de 1922 e Alto Comissário da Sociedade das Nações (SdN) para os Refugiados na época. Uma leitura importante para compreender a identidade grega e turca modernas e os antagonismos e traumas que assolam os dois Estados.
JPTF 2007/03/02
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fevereiro 15, 2007
Livro “Alms for Jihad”, de J. Millard Burr e Robert O. Collins, Imprensa da Universidade de Cambridge, 2006

O livro Alms for Jihad. Charity and Terrorism in the Islamic World/Esmolas para a Jihad. Caridade e Terrorismo no Mundo Islâmico aborda um assunto mal conhecido e bastante delicado, que é o dos circuitos paralelos de recolha e distribuição dos dinheiros do Zakat. Os seus autores, J. Millard Burr (antigo funcionário do Departamento de Estado norte-americano, ligado à operação Lifeline, de ajuda ao Sudão) e Robert O. Collins (historiador da Universidade de Califórnia) analisam, sucessivamente, os seguintes tópicos: o Zakat como terceiro pilar do Islão; a Arábia Saudita e a caridade islâmica; os bancos; o início do Afeganistão; a caridade islâmica e o Sudão revolucionário; o Islão em guerra nos Balcãs; o crescente da Ásia Central e a Rússia; do Afeganistão à Ásia do Sudeste; a Terra Santa; a islamização da Europa; a caridade islâmica na América do Norte. Para os menos familiarizados com esta temática, cabe esclarecer que o Zakat é o imposto de caridadade previsto pela Xária (Sharia), a lei islâmica. O problema é que esta contribuição que, em si mesma, é obviamente louvável e até mostra um lado interessante de justiça social no Islão é, não invulgarmente, utilizada para financiar a Jihad (infelizmente, não no sentido espiritual de luta contra o mal interior, mas sentido de acção física, frequentemente violenta, contra aqueles que os grupos islamistas consideram ser os inimigos do Islão e que podem ser tanto não muçulmanos como outros muçulmanos). Sé é abusivo tirar daqui a conclusão que a generalidade das ONG´s e outras organizações de assistência humanitária islâmica não prosseguem os seus fins altruístas, como quaisquer outras ONG´s, é também ingénuo achar que, a coberto de um ideal dos mais nobres, não operam, no terreno circuitos perversos que nada têm a ver com os ideais humanistas e de ajuda ao sofrimento das populações que estaríamos à espera de ver funcionar. Dada a especificidade cultural e religiosa desta prática e o carácter frequentemente informal da recolha do Zakat – e o aspecto à primeira vista irrepreensível de muitas dessas falsas ONG´s caritativas –, a grande dificuldade prática é saber, em concreto, quando estamos perante estas situações desvirtuadas, que alimentam e difundem ideologias radicais e circuitos de violência, ou apenas de acções caritativas de ajuda desinteressada às populações. Esta dificuldade torna-se ainda mais complexa quando as duas situações se misturam de forma intrincada em várias organizações e acções no terreno, o que é típico dos movimentos islamistas... Uma leitura interessante e particularmente útil, não só para aqueles que estudam as questões de segurança, ligadas ao islamismo radical e ao jihadismo, como para todos os que, para além das boas intenções, estão empenhados em desenvolver uma genuína e eficaz assistência humanitária.
JPTF 2007/02/15
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fevereiro 09, 2007
Livro “The Seduction of Unreason”, de Richard Wolin, Imprensa da Universidade de Princeton, 2006

Um encontro com uma das mais surpreendentes reviravoltas da vida intelectual europeia do século XX, é o que nos propõe Richard Wolin, um historiador das ideias da City University de Nova Iorque, no livro “A Sedução do Absurdo. O Romance Intelectual com o Fascismo de Nietzsche ao Pós-modernismo”, agora editado em paperback (a edição original é de 2004). Os trabalhos de Richard Wolin, oriundo do movimento da New Left dos anos 60, e que se define como um pensador liberal no sentido norte-americano da palavra (ou seja, não conservador), já deixaram um rasto de polémica e muitos intelectuais pós-estruturalistas /pós-modernistas da Europa e América do Norte, à beira de um ataque de nervos (sobretudo o já falecido Jacques Derrida). Quando falamos em pós-estruturalismo ou pós-modernismo, estamos a referir-nos a uma corrente intelectual ampla e heterogénea que se caracteriza, essencialmente, pela oposição aos ideais racionalistas, humanistas e universalistas do Iluminismo, pela crítica ao conhecimento científico considerado uma forma de poder e de opressão ao serviço da democracia liberal-capitalista, pela desvalorização da racionalidade, pela sustentação do relativismo cultural da verdade e pela defesa das políticas de identidade.
Na “Sedução do Absurdo”, Richard Wolin dividiu em duas partes a sua abordagem. A primeira é dedicada ao que este designa como a “ideologia alemã”, ou seja, o contra-iluminismo, empenhado na rejeição da crença na razão e na verdade universal, da possibilidade de progressão social e política pelos valores do liberalismo e da democracia e na negação do humanismo universalista iluminista do século XVIII. Aqui, Wolin analisa sobretudo as ideias e o percurso pessoal e político de pensadores como Nietzsche, Jung, ou Gadamer, efectuando também o que este chama uma “excursão política” sobre o pensamento da nova direita alemã. Insere ainda um capítulo dedicado especificamente à recepção pós-moderna de Nietzsche na América do Norte, após a “escala técnica” feita em França, onde adquiriu roupagens pós-estruturalistas, com o sugestivo título de “Zaratustra vai para Hollywood” (uma alusão irónica ao livro “Assim falava Zaratrustra”, de Nietzsche). Neste capítulo, põe em causa o uso selectivo e/ou as omissões deliberadas dos aspectos mais incómodos e comprometedores do pensamento de Nietzsche, usado e abusado pelos nazis como uma espécie de “filósofo da corte”, mas que nos textos dos pós-estruturalistas franceses e seus seguidores (os casos de Michel Foucault e Jaques Derrida são talvez o melhores exemplos), surge com uma imagem “desnazificada”, quase angélica, como um espírito sublime com meras preocupações estéticas e de crítica cultural e social, alheado dos meandros terrenos da política de poder (machtpolitik).
Na segunda parte, Wolin aborda o que este chama as “lições francesas” e a viagem da “ideologia alemã” para a outra margem do Reno, ou seja, a deslocação do contra-iluminismo com “a crítica da razão, da democracia e humanismo, que teve origem na direita alemã dos anos 20”, para França, pela via, bastante insólita, de parte da esquerda intelectual e política francesa, que se apropriou e internalizou essas ideias. A análise de Richard Wolin incide sobre os pensadores que, segundo este, tiveram um papel central nessa “transmutação” de ideias reaccionárias e próximas de ideologias totalitárias de direita – fascismo e nazismo – em ideias que passaram a ser apresentadas como “progressistas”, “democráticas” e de esquerda. Esses pensadores foram Georges Bataille, Maurice Blanchot e Paul de Man, passando pela influência filosófica de Martin Heidegger, para culminar no desconstrucionismo de Jacques Derrida e nas implicações do seu relativismo extremo sobre a própria ideia de verdade e de justiça. Há também uma segunda “excursão política”, agora sobre o pensamento da nova direita francesa da Frente Nacional de Le Pen e seus seguidores. O que se torna perturbante ao longo da leitura do livro é a evidenciação das similitudes filosófico-políticas entre o actual pós-modernismo e as suas pretensões de crítica e superação da modernidade, e muitas das ideias dos intelectuais “protofascistas” dos anos 20 e 30, que aderiram a ideologias totalitárias, e que pretendiam erradicar a democracia parlamentar e o liberalismo, revelando a existência de um vasto “património negro” habitualmente omitido ou “embelezado” pelos seus adeptos.
Indubitavelmente desconcertante é ver como a ideia de uma esquerda tradicionalmente universalista, herdeira do Iluminismo e da Revolução Francesa, baseando os seus ideais e reivindicações sociais e políticas nas noções de razão, verdade, direitos humanos, justiça e democracia e que estava na linha da frente da luta contra o obscurantismo, se perdeu na nebulosa do pós-estruturalismo/pós-modernismo. Ao assimilar, entre outras influências, o “perspectivismo” de Nietzsche (bem expresso no dito “não há factos só há interpretações”) parte do pensamento de esquerda – a chamada “nova esquerda pós-marxista” – pretendeu relativizar as normas sociais e/ou jurídicas da sociedade liberal-burguesa, denunciando-as como expressão de interesses particulares ou relações de poder que arbitrariamente favorecem alguns povos, culturas ou grupos sociais em detrimento de outros. Com este fundamento filosófico e epistemológico os “progressistas pós-modernistas” consideram-se em posição de “desconstruir” as normas dos grupos dominantes, ou privilegiados socialmente, e denunciar a hipocrisia social que lhe está subjacente, proclamando, em alternativa, que todas as “culturas são boas”. Para além do impasse ético e do bloqueio da acção política a que este tipo de ideias tendencialmente leva (o que, só por si, já é negativo) é também óbvio que o mesmo procedimento corrosivo pode ser aplicado aos ideais verdadeiramente progressistas, como os direitos humanos. Se os virmos sob o prisma do pós-modernismo chegamos à conclusão que são uma expressão da cultura ocidental (o ideário liberal contido nas revoluções francesa e americana) e de uma vontade de poder do Ocidente, que pretende impor a “hegemonia cultural” denunciada por Gramsci, não havendo, por isso, razão válida para que outras culturas os adoptem. Não é isso que dizem também os ideólogos do islamismo radical, como Mawdudi e Qutb? Não é isso que faz também a Organização da Conferência Islâmica, com a sua Declaração dos Direitos Humanos no Islão, que não são os da Declaração Universal das Nações Unidas?
NOTA: Esta recensão foi publicada na Crítica: Revista de Filosofia e Ensino http://www.criticanarede.com/
JPTF 2007/02/09
fevereiro 08, 2007
Livro “Selling Illusions: The Cult of Multiculturalism in Canada” de Neil Bissoondath, Toronto, Penguin Books, 2002

“Vendendo Ilusões” é um livro da autoria do escritor e ensaísta canadiano, Neil Bissoondath – nascido em Trinidad e Tobago e de ascendência indiana –, sobre o que esta chama mordazmente o “culto do multiculturalismo no Canadá”. Tendo sido publicado pela primeira vez em 1994, ano em que se tornou um best-seller nesse país, foi reeditado em 2002. Apesar do tempo decorrido, são várias as razões que recomendam a sua leitura, ou re-leitura, e tornam o livro muito actual. O autor mostra facetas sociais e políticas pouco conhecidas no exterior e questiona aquelas que habitualmente são vistas como as virtudes do modelo canadiano. Na sua óptica, o multiculturalismo falha significativamente em matéria de cidadania e de integração social e económica de populações culturalmente diversas. Bissoondath faz uma crítica mordaz à principal imagem de marca do multiculturalismo oficial – os festivais de cultura que cada comunidade organiza com o apoio das autoridades multiculturais –, qualificando-os como representações estereotipadas e caricaturais dessas mesmas culturas. Mas o assunto pode ter contornos bem mais sérios do que os festivais de cultura. Como este refere (pp. 112-113), quando, no início dos anos 90, a Jugoslávia “começou o seu deslize inexorável para o horror, uma notícia da CBC relatava que um número estimado de 250 descendentes de emigrantes croatas, jovens com corpo robusto e mente sã, deixaram o país para pegar em armas em defesa da Croácia. A notícia levantava de imediato uma questão: como é que estes jovens se definiam a si próprios? Como croatas ou croatas-canadianos? Como canadianos de descendência croata, ou croatas nascidos no Canadá? E seria interessante saber que país escolheriam se um dia fossem obrigados a isso: a terra dos seus pais, pela qual escolheram lutar, ou a terra do seu nascimento, da qual escolheram partir?”. Em seguida, acrescenta a seguinte reflexão: “Lealdades divididas revelam uma alma dividida e uma alma dividida um país dividido. Estes jovens canadianos de descendência croata não estão sozinhos na sua lealdade adulterada ao Canadá. Outros também acham impossível efectuar um comprometimento sincero para com a nova terra, os novos ideais, a nova maneira de olhar a vida”. Já depois da publicação da segunda edição do livro de Bissoondath, ocorreu um episódio que vem dar ainda mais consistência às críticas às políticas multiculturais. Esse episódio foi a tentativa de criação de tribunais que aplicassem a Xária (Sharia) – a lei islâmica –, para as questões de família entre muçulmanos, na área de Toronto, liderada pelas organizações islamistas, durante os anos de 2004 e 2005, que afirmavam representar cerca de 1 milhão de muçulmanos do Canadá. Essa tentativa evidenciou bem a fragilidade do multiculturalismo e mostrou a “janela de oportunidade” que estas políticas representam para os movimentos que têm por objectivo a re-islamização do social e do político. Ironicamente, foi a uma suposta beneficiária das políticas multiculturais, a muçulmana canadiana, Homa Arjoman (uma advogada de origem iraniana, feminista e activista dos direitos humanos), que se deveu, em grande parte, o fracasso dos Tribunais Xária que a classe política e intelectual canadiana se preparava para aceitar, em nome da “celebração da diversidade”. Como salientou Homa Arjomand, “em nome do ‘respeito pelo multiculturalismo‘ e das vergonhosas ideias do relativismo cultural que deixam as pessoas sujeitas ao arbítrio da sua própria cultura, os Estados deixaram as portas amplamente abertas para as religiões e aderentes de antigas tradições promoverem escolas religiosas e centros; para legalizar casamentos arranjados e forçados; para segregar rapazes a raparigas com idades muito novas na escola, nos autocarros escolares e nos recreios; para impedir as raparigas de obterem iguais oportunidades em todos os aspectos das suas vidas; ver mas ignorar os homicídios de honra e muitas outras práticas… Todas estas práticas desumanas acontecem também no Ocidente”. Por tudo isto, percebe-se bem a aversão de Neil Bissondath (e Homa Arjomand) às políticas do multiculturalismo, que criam “canadianos com hífen” e não apenas “canadianos”, tendo, demasiadas vezes, um efeito oposto ao proclamado oficialmente: afastam as minorais da cultura dominante levando-as ao gueto cultural, o que lhes diminui drasticamente as possibilidades de integração e de sucesso económico e social. Uma experiência para reflectir, sobretudo nas sociedades europeias onde estas realidades são novas.
JPTF 2007/02/08
janeiro 30, 2007
Livro “Tariq Ramadan devoilé”, de Lionel Favrot, Edições Lyon Mag, Hors série, 2004

Tariq Ramadan é um personagem praticamente desconhecido do público português, mas não é esse o caso de vários países da Europa Ocidental e da América do Norte, onde é já quase uma celebridade. Na Suíça, onde nasceu, a família Ramadan, que habita a cidade de Genebra é bem conhecida e o seu irmão Hani dirige o Centro Islâmico dessa cidade helvética, conhecida pela sua tradição de liberdade. Em França, a notoriedade junto do grande público deve-se, sobretudo, ao debate televisivo de 2003, com Nicolas Sarkozy, na altura da questão do véu (foulard). No Reino Unido, onde actualmente é professor convidado do St. Anthonhy´s College da Universidade de Oxford, integra também, desde Agosto de 2005, a convite de Tony Blair, uma task force para analisar as raízes do extremismo, constituída após os atentados de 7/7 de 2005. A revista norte-americana Time considerou-o um dos líderes espirituais e um dos pensadores inovadores do século XXI, que “liga os seus valores islâmicos com a cultura ocidental”. Com todo este historial e credenciais, a primeira reacção ao olharmos para o título de livro de Lionel Favrot ( “Tariq Ramadan desmascarado”) é de alguma incredulidade e de o avaliar como mais um livro sensacionalista que pretende denegrir um intelectual respeitado, explorando as fobias ocidentais do pós 11 de Setembro de 2001, face ao Islão e aos muçulmanos. Embora esse tipo de literatura de facto abunde, aproveitando, não invulgarmente, para extravasar sentimentos racistas e xenófobos, não é esse o caso desta publicação. O livro coloca muitas questões e lança dúvidas bastante sérias sobre este “líder espiritual e pensador inovador do século XXI”. Mas antes de falarmos do teor do livro, uma nota sobre o seu autor e o editor. O Lyon Mag é um revista independente, fundada em 1995, maioritariamente detida pelos próprios jornalistas, como é o caso de Lionel Favrot. Desde os primeiros tempos que a revista investiu no jornalismo de investigação, tendo feito algumas investigações de vulto, nomeadamente sobre as acções dos movimentos islamistas junto dos muçulmanos dos bairros periféricos das grandes cidades francesas. É ao Lyon Mag que se deve a entrevista a Abdelkader Bouziane, o iman de Vénissieux, que acabou por ser expulso de França em 2004, pelas suas actividades de radicalização dos jovens muçulmanos e de apelo à violência contra as mulheres. Um outro aspecto que merece atenção, é o teor do prefácio de Soheib Bencheikh, que é um dos mais eruditos teólogos muçulmanos europeus. Foi grande mufti de Marselha e actualmente é membro do Conselho Francês do Culto Muçulmano, tendo formação teológica na Universidade de Al-Azhar do Cairo. É sobretudo um muçulmano que promove um Islão aberto, tolerante e adaptado as sociedades europeias (ver a recensão ao livro Marianne et le Prophète, efectuada neste site). Tal como Soheib Bencheikh faz notar (p. 13), “não é o Islão que está em causa quando se fala de Tariq Ramadan, mas o ‘islamismo‘, quer dizer, esta ideologia político-religiosa que toma como refém a fé dos muçulmanos”. E acrescenta este de seguida: “O que eu posso afirmar pessoalmente, sem hesitar, é que Tariq Ramadan não é, em caso algum, um moderado. Basta assistir a essas reuniões onde ele coloca as mulheres cobertas pelo véu, de um lado, e os homens barbudos, do outro lado, para ver a que sociedade ele aspira. O seu objectivo é isolar os jovens muçulmanos do resto da sociedade ocidental. Aliás, este extrai os seus discursos da literatura politizada dos Irmãos Muçulmanos”. Para o público menos familiarizado com este assunto, importa notar que os Irmãos Muçulmanos (ou Irmandade Muçulmana), são a primeira organização islamista do século XX, fundada no Egipto, em 1928, por Hassan al-Banna, avô de Tariq Ramadan. Actualmente são uma poderosa organização internacional, com vários rostos, presente um pouco por todo o mundo muçulmano e na Europa e América do Norte, onde, através de grupos e organismos nacionais que lhe são próximos, procura difundir a sua ideologia e colocar-se como representante da “comunidade muçulmana”. A estratégia parece ser a de abafar a voz de outras correntes do Islão, sobretudo dos muçulmanos liberais e secularistas, que naturalmente se lhe opõem, e dominar as actividades religiosas e educativas através de “escolas confessionais”, actividades sociais e de culto, etc., aparentemente inócuas do ponto de vista político. Observação importante: todos os grandes pensadores e organizadores do islamismo enquanto ideologia, desde Hassan al-Banna a Sayyid Qutb, passando por Sayyid Mawdudi, apostaram sempre nas actividades sociais e educativas como melhor forma de difundir a sua ideologia e colher resultados mais à frente. Para esta estratégia, aos jihadistas da Al-Qaeda deram-lhes indirectamente uma boa ajuda, permitindo-lhes apresentar-se, junto de governos europeus desorientados e à procura de interlocutores, como o rosto de um “Islão moderado”, que condena o terrorismo. Este é um trabalho estratégico notável dos Irmãos Muçulmanos que, pacientemente, tem sido desenvolvido ao longo de várias décadas, e com apreciável sucesso. Nos últimos tempos, o seu campo de acção é também a Europa (ver a notícia do jornal Guardian de 29/01/2007, sobre o crescente apoio das gerações de jovens muçulmanos à Xária islâmica e ao uso de véu). Apesar de sempre ter negado qualquer vínculo com a organização dos Irmãos Muçulmanos e com a sua ideologia, tudo indica que Tariq Ramadan converge, à sua maneira, com esta linha de actuação estratégica. Na origem da sua transferência para o Reino Unido está, provavelmente, o facto de ter percebido a “janela de oportunidade” que a ideologia e política multiculturalista britânica representa. Esta é muito mais interessante do que a laïcité francesa, que funciona como barreira aos seus propósitos de islamização do social e do político (isto, para não falarmos na maior visibilidade que dá o Reino Unido e a língua inglesa, como veículo privilegiado de comunicação). Neste aspecto, a estadia durante o ano de 1998, na Fundação Islâmica de Leicester, próxima do Jamaat-i-Islami paquistanês de Sayyid Mawdudi, deve ter funcionado como uma espécie de “revelação” premonitória. Uma obra importante de jornalismo de investigação que valia a pena traduzir para língua portuguesa. Quanto aos mais mais incrédulos, podem começar por ouvir extractos sobre as predicações de Tariq Ramadan no site do Lyon Mag em http://www.lyonmag.com/spip.php?article9722
JPTF 30/01/2007
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janeiro 28, 2007
Livro “Manifeste pour un Islam des Lumières”,, de Malek Chebel, Paris, Hachette, 2004

O modelo de integração da França que tradicionalmente conjuga a tradição republicana da laicitë com a ideia de uma cidadania igualitária (abstraindo da diferença cultural e religiosa), tem sido, nos últimos tempos, fortemente atacado pela direita conservadora e retrógrada (obcecada pelo jacobinismo e anti-clericalismo francês) e por boa parte da New Left (seduzida pela ideologia multiculturalista de influência anglo-saxónica). No caso português, onde os pensadores são escassos, e onde tradicionalmente se cultivam modelos importados, não é surpreendente que a moda intelectual e política se tenha transferido para a ideologia multiculturalista, seja na versão soft de Will Kymlicka, seja na versão hard de Iris Marion Young e outros. Quando hoje se discutem as virtudes e defeitos dos diferentes modelos de integração, valeria a pena olhar com mais atenção para o país onde existe a maior população muçulmana da Europa Ocidental, e para além da questão do véu ou da turbulência ocorrida nos subúrbios das grandes cidades, em finais de 2005. Uma das coisas que chama à atenção, quando se analisa com algum pormenor o Islão francês, é que aí existe um número particularmente significativo de muçulmanos liberais, provavelmente com maior dimensão, em termos absolutos e relativos, do que em qualquer outro país da Europa e Ocidente. Será mero acaso, ou será que a tradição republicana de, cidadania laica e igualitária também contribui para essa realidade? Seja qual for a resposta, a verdade é que em França encontramos intelectuais como Abdelwahab Medded, Ghaleb Bencheikh, Mohamed Arkoun, Soheib Bencheikh, entre outros, que sustentam e promovem um Islão aberto, tolerante, que se procura adaptar às sociedades contemporâneas (questão: quantos muçulmanos liberais já produziu a ideologia multiculturalista, em países europeus como o Reino Unido?). E encontramos também propostas reformistas importantes, como as apresentadas neste Islão da Luzes do antropólogo francês, de ascendência argelina, Malek Chebel. No seu livro, assume a influência do Iluminismo francês e europeu do século XVIII, como modelo de reforma do Islão, como explica logo nas páginas iniciais (p. 10): «A expressão ‘Islão das Luzes‘ pode surpreender. Empregue aqui no sentido que lhe dão os historiadores quando evocam o século XVIII e XIX, ela visa sobretudo mostrar que, nem o Islão, nem o mundo árabe, estão irremediavelmente zangados com a ideia de progresso». A adesão aos valores do Iluminismo e Racionalismo, feita por Malek Chabel, e a sua vontade de os utilizar na reforma do Islão é algo muito importante. Em termos intelectuais, o confronto hoje não é só contra o obscurantismo dos islamistas. Deparamo-nos com um outro projecto que nada tem a ver com o Islão - o do pós-modernismo ocidental -, mas que também adquire, nos casos mais extremos, os contornos surpreendentes de um novo obscurantismo (ver o livro de Richard Wolin, The Seduction of Unreason, 2004). Entre as 27 propostas para um Islão das Luzes, feitas no livro de Malek Chebel, há uma que, nas circunstâncias políticas actuais, inevitavelmente chama à atenção do leitor, que é a proposta de decretar a «guerra santa» como algo «inútil e ultrapassado». Como este explica (p. 39), o que está em causa é «substituir a guerra santa (jihad) por uma verdadeira ascese interior, um sacerdócio orientado em direcção ao bem, um verdadeiro aprofundamento da fé e não uma diversão obtida com a ponta da espada. A paz contra a guerra, será possível? Poucos muçulmanos aderem à necessidade de levar a guerra santa aos quatro cantos do mundo habitado, mas aqueles que a aceitam denunciá-la publicamente são ainda menos». Este espírito de crítica e de reforma de Malek Chebel mostra a enorme injustiça que se comete quando pretende ligar, indiscriminadamente, o Islão e os muçulmanos a ideologias políticas como o islamismo e ao seu extremo violento (o jhiadismo). E mostra ainda os erros que têm sido cometidos pelos governos e e autoridades nacionais e europeias, ao não apoiarem e escolherem como interlocutores os muçulmanos liberais e as suas organizações (deixando essa tarefa, frequentemente, nas mãos de indivíduos e grupos islamistas), pois estes são cruciais para a integração harmoniosa das populações muçulmanas. Uma leitura obrigatória para todos os que pretendem conhecer os ventos de reforma do Islão europeu.
JPTF 2007/01/28
janeiro 27, 2007
Livro “Marianne et le Prophète. L´Islam dans la France Laïque”, de Soheib Bencheikh, Paris, Grasset, 1998

Já tem uns anos mas vale a pena ler, ou reler, este excelente Mariana e o Profeta, de Soheib Bencheikh, um ensaio sobre o Islão francês. E vale a pena ler não só porque o autor é um erudito teólogo muçulmano com um notável curriculum (grande mufti de Marselha, membro do Conselho Francês do Culto Muçulmano), sendo actualmente um dos candidatos às eleições presidenciais francesas, mas também para se perceber como existe um Islão esclarecido, aberto e tolerante, muitas vezes subestimado, sobretudo por desconhecimento do grande público e até dos próprios governos europeus e ocidentais, Infelizmente, como resultado desse desconhecimento, aos muçulmanos liberais não é dado suficiente apoio para desenvolverem a sua acção integradora, religiosa e cívica. A visão do Islão que nos é dada por Soheib Bencheikh nada tem a ver com os estereótipos negativos frequentemente existentes, e que, infelizmente, penalizam os muçulmanos indiscriminadamente. Um outra grande virtude deste livro é que permite perceber bem as diferenças de um Islão aberto, tolerante e que se procura adaptar aos tempos modernos e o Islão politizado, radicalizado e retrógrado, que é difundido pelos islamistas, cuja estratégia é abafar as vozes dos muçulmanos liberais. Trata-se de um ensaio sóbrio e erudito, feito por um universitário que é também um homem de fé, sobre a integração dos muçulmanos na sociedade laica francesa. Mas a sua análise poderia servir muito bem para os muçulmanos de qualquer país europeu. Um livro que deveria estar traduzido para língua portuguesa, pois contém uma contribuição importante e genuína para o conhecimento do Islão e para um diálogo e entendimento entre as diferentes religiões, algo que não abunda nos tempos conturbados e confusos em que vivemos.
JPTF 2007/01/27
janeiro 26, 2007
Livro “Foucault and the Iranian Revolution” de Janet Afary e Kevin B. Anderson, Imprensa da Universidade de Chicago, 2005

«O Orientalismo romântico de Foucault», podia muito bem ser o título deste livro, que coloca, a partir de uma perspectiva feminista e de esquerda, questões profundas e particularmente incómodas sobre o pensamento de Foucault e a sua crítica enviesada da modernidade. Sendo um dos autores canónicos do actual pós-modernismo nas Ciências Socias e Humanas, o assunto é tanto mais curioso quanto Michel Foucault ganhou fama pela sua «filosofia da suspeição» e pela «desconstrução» das grandes narrativas e utopias ocidentais. Ironicamente, Foucault, o «desconstrutor» e «genealogista», afinal também tinha a sua utopia romântica. Qual era? Vejamos os acontecimentos. Com o início da revolução iraniana, Foucault decidiu visitar o Irão para assistir ao desenrolar desta, que foi objecto do seu particular interesse e entusiasmo como intelectual «engagé». Na sua deslocação ao Irão assumiu um papel de jornalista de investigação, funcionando como correspondente especial do jornal italiano «Corriere della sera». Publicou também algumas das suas peças jornalísticas na imprensa francesa, nomeadamente no jornal «Le Monde» e na revista «Nouvel Observateur». Nesses textos, Foucault retratou de forma quase entusiástica o movimento islamista iraniano liderado pelo Ayatollah Ruhollah Khomeini, vendo-o como uma nova forma de «vontade política», perfeitamente unificada, que abria «uma dimensão espiritual na política». Isto, em contraste com as «cruéis, selvagens, egoístas, desonestas e opressivas sociedades» criadas pelo moderno capitalismo liberal. Como realçam Janet Afary e Kevin B. Anderson, uma ilação profunda resulta do episódio iraniano de Foucault e não está apenas relacionada com este pensador. A ilação é particularmente importante para a actualidade e está relacionada com o fenómeno geral do «fundamentalismo religioso», mostrando a existência de um bloqueio intelectual que afecta várias correntes da esquerda política, impedindo uma resposta adequada a este. Uma leitura que se recomenda aos seguidores e aos críticos.
Esta recensão foi publicada na Crítica: Revista de Filosofia e Ensino http://www.criticanarede.com/
JPTF 26/01/2007
Etiquetas:
Ideologias,
Islamismo,
Livros,
Política Internacional
janeiro 24, 2007
Livro “L´Iran, la bombe et la démission des nations”, de Thérèse Delpech, Paris, Edições Autrement, 2006

A investigadora francesa associada ao CERI e membro do IISS de Londres, Thérèse Delpech, publicou um interessante trabalho sobre a questão nuclear iraniana. Em “L´Iran, la bombe et la démission des nations”/“O Irão, a bomba e a demissão das nações” analisa a estratégia de abordagem à ambição nuclear iraniana, dos diferentes actores internacionais (UE, EUA, Rússia, China, Coreia do Norte, África do Sul, Paquistão, Egipto e Índia, incluindo, também a Agência Internacional de Energia Atómica). A análise de Thérèse Delpech é essencialmente pessimista, mostrando como o Irão tem conseguido aproveitar a ambiguidade, as contradições e os interesses divergentes dos diferentes actores internacionais, para ganhar tempo e prosseguir com o seu programa nuclear que, na versão oficial, é para fins exclusivamente civis. Como faz notar a autora, quando a questão nuclear iraniana começou a ocupar a agenda internacional, em 2004, surgiu também a retórica de Ahmadinejad sobre a inexistência do genocídio da população judaica durante a II Guerra Mundial, feito regime nazi (que já fez deste um herói da extrema-direita) e sobre a necessidade de «riscar Israel do mapa». Coincidência? Obviamente que não. Num certo sentido, tudo isto é um déjà vu: as ambições de poder e de liderança dentro do mundo árabe-islâmico têm, desde a primeira guerra israelo-árabe em 1948, levado à instrumentalização sucessiva da causa palestiniana pelos seus «irmãos muçulmanos». O Irão de Ahmadinejad está, à sua maneira, a fazer algo similar ao Egipto de Gamal Abdel Nasser nos anos 50 e 60; à Síria de Hafez el-Assad e a Líbia de Muhammad al-Khadafi anos 70 e 80; e ao Iraque de Saddam Hussein nos anos 80 e 90: ou seja, a tentar liderar o mundo muçulmano e a afirmar a sua hegemonia regional. Hoje mais do que nunca, o trunfo nuclear parece ser a carta mais ambicionada neste jogo de poder. Resta saber onde nos levará esta estratégia do Irão de Mamoud Ahmadinejad. A questão fundamental é que o mundo actual existem inúmeras tensões acumuladas com origem em actores estaduais, desde o Mediterrâneo ao Extremo Oriente (Palestina, Iraque, Caxemira, Afeganistão, Taiwan, Coreia do Norte, etc.) e também não estaduais (Al-Qaeda, etc.), como muito bem evidenciou Thérèse Delpech no seu livro anterior (“L'ensauvagement: Le retour de la barbarie au XXIe siècle”). Neste contexto, desequilíbrios na balança de poderes regionais associados, ou não, a conflitos aparentemente insignificantes, podem ser o rastilho de uma confrontação alargada, de consequências imprevisíveis para toda a humanidade.
JPTF 2007/01/24
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